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Dietas low carb podem aumentar a mortalidade?

Sophie Deram

2019-06-20T19:04:00

19/06/2019 04h00

Crédito: iStock

Os índices de obesidade vêm crescendo e, junto com isso, os casos de doenças crônicas associadas, como doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer, também têm aumentado…

Na busca por hábitos que possam ir na contracorrente desses números, muitas dietas têm surgido… e uma das que tem tido mais adeptos e até defensores fervorosos são as dietas com restrição de carboidratos, as famosas dietas low carb, muitas vezes encaradas como NO carb. No entanto, a segurança a longo prazo do consumo dessas dietas low carb permanece controversa.

Entenda as dietas low carb

Nosso corpo, leia-se, todas as nossas células precisam de combustível para funcionar! E a fonte energética de preferências de todas elas é a glicose. As fontes de glicose na nossa alimentação são os carboidratos: dissacarídeos, oligossacarídeos, polissacarídeos, etc. São moléculas que serão quebradas durante a digestão e darão origem a moléculas menores, os monossacarídeos que são açúcares, glicose, frutose, galactose, etc. Os principais alimentos fontes de carboidratos são os pães, macarrão, outras massas, arroz, farinhas, batata doce…

Se glicose não é fornecida ao nosso corpo pela alimentação, ele vai buscar formas alternativas de energia e assim pode usar reservas próprias de glicogênio dentro do fígado (quantidade limitada), os músculos (proteínas, aminoácidos) e, finalmente, a gordura (ácidos graxos, mais especificamente).

E foi assim que veio o raciocínio de que, se evitar fontes de carboidratos, nosso corpo vai usar as reservas de gordura como fonte energética, levando a uma perda de gordura e, consequentemente, ao bendito emagrecimento.

No entanto, usando vias metabólicas outras que a do glicose para fornecer energia, o corpo vai gerar corpos cetônicos (produtos derivados da quebra de gordura), por isso essas dietas são também conhecidas como dietas cetogênicas.

Dietas low carb apresentam riscos?

A eficácia de dietas pobres em carboidratos e ricas em proteínas e gordura para promover a perda de peso e até reduzir o risco cardiometabólico foi relatada em algumas revisões sistemáticas e meta-análises.

Mas será que elas são realmente uma boa alternativa para perda de peso e promoção de saúde duradoura?

A resposta a essa pergunta não foi muito clara nos estudos realizados e ainda existe muita confusão com relação a esse assunto, especialmente no que diz respeito a resultados a longo prazo.

Recentemente, outros estudos têm demonstrado que as dietas com pouco carboidrato podem ter consequências graves como, por exemplo, aumentar o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares e até mesmo morbidade e mortalidade por câncer.

Por que? Se diminuímos muito a proporção de carboidratos da alimentação consequentemente aumentamos a porcentagem de gorduras ingeridas. Isso é o normal do ser humano e excesso de gordura pode alterar a saúde!

A dificuldade é que esses estudos têm muitas vezes conclusões controversas por vários motivos: amostras pequenas, acompanhamento por períodos curtos, variações individuais.

Um estudo publicado em abril 2019 veio completar algumas lacunas no que diz respeito à relação entre esses tipos de dieta low carb e mortalidade por todas as causas e também por causas específicas como doenças cardiovasculares, derrames e câncer.

Dietas com poucos carboidratos podem aumentar os riscos de doenças cardiovasculares?

Esse novo estudo, publicado no respeitado jornal da Sociedade Européia de Cardiologia, observou uma associação entre dietas com baixos níveis de carboidratos e um aumento do risco de mortalidade, sugerindo que os profissionais de saúde repensem as recomendações sobre restrição de carboidratos.

O que difere esse estudo de todos os outros que existiam até hoje é que eles fizeram um estudo de coorte (que quer dizer analisar um conjunto de pessoas que têm algo em comum, no caso, adeptas das dietas low carb) usando um número muito grande de pessoas, o que seria representativo em nível nacional. Quanto maior o número de pessoas analisadas, mais próximo chegamos do que acontece realmente numa população. Participaram desse estudo quase 25 mil pessoas que foram acompanhadas por 12 anos!

Além disso eles contextualizaram os dados que obtiveram com uma revisão sistemática abrangente, ou seja, compararam outros estudos realizados até hoje aos dados que coletaram nesse estudo, e ainda fizeram uma meta-análise para examinar as associações entre as dietas low carb e todas as causas de mortalidade específica (DCV, AVC e câncer) usando os resultados de estudos prospectivos de coorte já existentes. Estudos completos assim são realmente raros!

Eles afirmam que as dietas com baixo carboidrato podem ter resultado no curto prazo para melhorar o peso corporal, a pressão arterial, os níveis de glicose e lipídios séricos e a esteatose hepática (gordura no fígado). Porém os pesquisadores viram que, a longo prazo, existe uma associação dessas dietas low carb com mortalidade em geral, doenças cardiovasculares, cerebrovasculares e câncer. Além disso, essa associação é forte o suficiente para colocar em xeque a segurança desse tipo de dieta. Eles concluíram que, apesar de ser impossível determinar uma causalidade, existe uma relação desfavorável da escolha por uma dieta com restrição de carboidratos e mortalidade geral e por causas específicas.

Sugeriram que as dietas low carb estão associadas a danos a longo prazo, e aconselham que esse tipo de dieta para perda de peso deveria ser repensada na prática clínica.

O estudo tem limitações como em qualquer estudo em humanos. As recomendações nutricionais para perda de peso baseadas em baixo teor de gordura e rica em fibras continuam sendo preferíveis.

Esse estudo veio para confirmar mais uma vez que dietas restritivas não são a melhor saída para chegar a ter uma vida mais saudável e um peso estável e sustentável por consequência. As dietas restritivas, independente de qual seja, não estão resolvendo os problemas de obesidade e doenças associadas. É preciso comer melhor e não menos!

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.