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Nutrição Sem Neura

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Será que meu filho tem um "comer transtornado"? Veja sinais de alerta

Sophie Deram

06/06/2018 04h00

Crédito: iStock

Houve um tempo em que criança só tinha problema de criança: gripe, catapora, joelho ralado, dedão do pé esfolado. Mas esse tempo ficou para trás e hoje os pequenos enfrentam problemas de gente grande, como obesidade, diabetes, estresse e até mesmo possíveis transtornos alimentares.

Isso pode assustar um pouco os pais, a princípio, pois normalmente os distúrbios mais comuns, como anorexia, bulimia e compulsão, são mais predominantes a partir da adolescência ou na vida adulta. Além disso, é muito difícil conseguir fechar diagnósticos com as crianças, porque elas geralmente não demonstram sintomas clássicos. Por isso mesmo uso "comer transtornado" ao invés de "transtorno alimentar".

Na prática clínica, vemos que o mal-estar em torno da comida está aumentando cada vez mais. Recebo queixas de pais e mães preocupados com o comportamento alimentar dos filhos e, às vezes, a família também têm uma relação conturbada com o corpo e um histórico complicado de dietas.

Um estudo recente conduzido pela Newcastle University, no Reino Unido, buscou fatores de risco para transtornos alimentares em crianças e pré-adolescentes. Foi observado que, em crianças a partir dos sete anos de idade, os sintomas mais associados às dificuldades alimentares eram fazer alguma restrição alimentar, ter traços depressivos e sentir insatisfação corporal. Nos Estados Unidos, há relatos de crianças reclamando do próprio peso e preocupadas com o tamanho da barriga já a partir dos quatro anos. Quatro anos!

O que esses números nos dizem?

Todas as crianças nascem com um comportamento bastante equilibrado diante da comida, com os seus sinais de fome e saciedade muito bem afiados. Mas com o passar dos anos, elas podem perder isso e desenvolver uma relação complicada com a comida e o corpo.

A ciência nos mostra que o comportamento alimentar das crianças é massivamente influenciado pelo ambiente que elas vivem –a própria casa, os amiguinhos, a escola. Ou seja: viver cercado por pessoas que também não têm uma relação boa com a comida é algo que pode gerar reflexos negativos, que, se não tratados, serão carregados até a vida adulta.

A palavra tem poder

A recomendação aqui vai não só para pais e mães de crianças, mas também para quem tem filho adolescente. Estamos falando de fases da vida que são muito impactantes do ponto de desenvolvimento físico e emocional. A infância e a adolescência são momentos da vida em que opiniões, valores e crenças ainda estão sendo sedimentados. É a melhor hora para se construir uma relação de qualidade com o corpo e com os alimentos.

O papel dos pais é, em primeiro lugar, ficar atento com as mensagens que estão passando para os filhos. Falar muito de dieta e de imagem corporal não é algo saudável. Às vezes, frases aparentemente inocentes como "estou gorda com essa roupa" ou "tal atriz está feia depois que engordou" podem entrar no inconsciente dos filhos, que passarão a associar gordura ao fracasso, à tristeza e à frustração.

Principais sinais

Além disso, vale ficar atento para não deixar que sinais importantes passem batido. Nem sempre é fácil diferenciar uma dificuldade normal na hora de comer de algo mais sério. Mas procure ficar de olho nos detalhes, porque quanto antes identificado o problema, maiores as chances de sucesso no tratamento.

O peso é um parâmetro importante: se houver muitas flutuações, ou emagrecimento brusco, ligue seu radar. Desconfie também se a criança ou adolescente nunca têm apetite, se anda evitando situações que envolvam comida; se parece estar se isolando dos amigos e exagerando nas atividades físicas. Fique atento à preocupação exagerada com rótulos de alimentos; com roupas (alguns passam a usar peças largas para não mostrar o corpo), com peso e com a imagem diante do espelho.

O que fazer?

Conversar é sempre a primeira opção. Sou à favor de uma abordagem mais positiva, então procure apoiar o seu filho nesse momento. Ajude-o a recuperar a autoestima exaltando qualidades que não tenham necessariamente a ver com a parte física.

Procure tirar o foco da imagem corporal e direcionar para a saúde e à importância de se alimentar de maneira adequada. Mude a atmosfera da casa, mude o assunto, vire o disco. A vida não é só comer, engordar e emagrecer. Comer deveria ser visto com o um momento de prazer, não de tortura!

Pequenas mudanças podem fazer uma grande diferença como, por exemplo, compartilhar as refeições e comer em paz, seguindo rotinas e privilegiando comida fresca e caseira. Estudos mostram que essas simples atitudes são bastante eficazes e ajudam a construir uma melhor relação com a comida.

Os pais são exemplo para os filhos, então, se tiverem uma boa qualidade alimentar, isso vai refletir diretamente neles! Vale a pena você fazer as pazes com a comida e o corpo!

Diga não às dietas restritivas

Hoje já se sabe que a grande maioria dos casos de transtornos alimentares começam com dieta restritiva. A minha indicação é: não faça! E não deixe que seu filho caia nessa também. Dietas podem atrapalhar o desenvolvimento, alterar o metabolismo e gerar uma culpa enorme ao comer, que só tende a crescer com o tempo. Ajude seu filho a ver a alimentação como algo positivo.

Se não notar progresso adotando essas mudanças, procure ajuda profissional. Descobrir a raiz do problema e tratar é a melhor coisa que você pode fazer para que seu filho cresça se relacionando melhor com a comida e possa aproveitar a vida bem longe de dietas malucas.

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.