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Fazer jejum intermitente para emagrecer? Não é recomendado!

Sophie Deram

13/02/2019 04h00

Crédito: iStock

Por muito tempo a dica era de comer de três em três horas e as pessoas se obrigavam a comer mesmo sem fome. Recentemente a dica é justamente o contrário: passar horas e horas sem comer, ou seja, fazer o tal do jejum intermitente. Mas afinal, pode comer ou não pode?

Com nossa neura coletiva buscando emagrecimento acelerado, o jejum intermitente entrou como o novo graal para perda de peso, melhora da microbiota intestinal, da glicemia, da longevidade e até da melhora do risco cardiovascular. Mas como sempre acontece com esses supostos milagres que aparecem de vez em quando, o jejum intermitente infelizmente está longe de ser tão incrível e não passa de uma porta de entrada para inúmeros riscos de desequilíbrio da saúde física, social e mental do público, sendo motivo de polêmica entre os profissionais da área.

Mas o jejum intermitente sempre existiu!

É verdade que a prática do jejum intermitente existe desde sempre por motivos que variam, por exemplo, da escassez de comida a práticas religiosas. Não tinham nada a ver com perda de peso!

A busca pelo emagrecimento rápido é algo recente e até um verdadeiro suplício para nosso cérebro, que foi formatado durante milhares de anos para temer passar fome e aproveitar toda oportunidade para comer. Estamos colocando toda nossa programação animal em desafio extremo ao tentar ficar sem comer ao mesmo tempo em que vivemos com uma abundância alimentar, cercados de alimentos o tempo todo e por todo lugar.

Mas o jejum intermitente ganhou o Prêmio Nobel!

O jejum entrou com fama na pesquisa científica com um Prêmio Nobel de Medicina recebido pelo Yoshinori Ohsumi que estudou o efeito positivo dele em leveduras. Ressalto aqui que são leveduras e não humanos, OK?

Até hoje, a maioria dos experimentos nesta área foram feitos com ratos ou com humanos em ambiente extremamente controlados em laboratório e, sim, mostram alguns benefícios para a saúde. Ainda assim, não temos até hoje nenhuma comprovação a respeito de emagrecimento saudável e sustentável. Por enquanto, o que temos é que o jejum intermitente pode sim fazer emagrecer no curto prazo mas com um risco de reganho de peso similar a qualquer dieta restritiva, ou seja, não é mais interessante do que as dietas da moda. Por isso, associar o jejum intermitente ao emagrecimento saudável é irresponsável e uma porta aberta a riscos de saúde e transtornos alimentares.

Em janeiro de 2019, saiu um parecer da ASBRAN (Associação Brasileira de Nutrição) se posicionando contra essa prática em consultórios e avisando a população não somente da falta de comprovações científicas, mas também dos riscos para a saúde! Apoio muito esse parecer, que  ajuda a nos posicionarmos de maneira ética e firme contra uma prática que coloca a população em risco de saúde.

Benefícios x Malefícios do jejum intermitente

A maioria dos estudos feitos com roedores relacionam o jejum a benefícios como a redução do risco de doenças cardiovasculares, assim como a melhora do diabetes, da longevidade, dos níveis de colesterol, de inflamações crônicas e doenças autoimunes.

Entretanto, precisamos ser cautelosos e lembrar que estes estudos se limitam a ratos ou a humanos sob condições muito específicas. Os animais ficam presos em gaiolas, em ambientes controlados e, sobretudo, sem acesso à comida! O contexto cotidiano de uma pessoa normal é muito diferente! Concorda? No cotidiano, estamos o tempo todo com acesso à alimentos, como nas reuniões de trabalhos, nos eventos sociais, nos estabelecimentos comerciais e até em posto de gasolina e farmácia. Temos que enxergar isso como algo positivo e não o contrário!

Além disso, durante o dia precisamos regularmente de energia para nosso organismo funcionar bem. A privação de comida pode interferir em nosso humor, nível de concentração e atenção e até em nossa memória. Isso nos coloca em risco de cometer erros no trabalho, na rua, no trânsito…Pense bem, será que vale a pena se expor a estes problemas em nome de um suposto emagrecimento, que nem mesmo é comprovado pela ciência?

Isso sem falar que, com fome, ficamos mais irritados, mal humorados, mais propensos a falar coisas sem pensar, a brigar com as pessoas que amamos. Sabia que em casas onde tem alguém de dieta, têm mais briga? Isso sim foi comprovado pela ciência!

A restrição aumenta o risco de ter compulsão alimentar

Assim como toda dieta restritiva, o jejum intermitente pode desregular a sua fome, aumentar a preocupação com os alimentos, elevando o risco de ter comer emocional e até de desenvolver transtornos alimentares.

É fato comprovado que grande parte das pessoas que faz dieta restritiva pode experimentar exageros e compulsões. Isso porque o melhor jeito de se iniciar uma compulsão é deixando de comer.

Jejum intermitente e risco de diabetes?

Um pesquisa científica brasileira  liderada por Ana Cláudia Munhoz Bonassa, pesquisadora da Universidade de São Paulo, sugere que o jejum intermitente pode causar sérias consequências prejudiciais para o metabolismo e até elevar o risco de diabetes tipo 2. O estudo (em ratos) mostra que o jejum pode prejudicar, não somente a atividade normal do pâncreas, como também a produção de insulina.

Alguns estudos anteriores já tinham sugerido que o jejum intermitente pode aumentar o estresse oxidativo das células, levando a produção de radicais livres, e assim acelerando o processo de envelhecimento e danificando o nosso DNA.

Mais uma vez, não existe milagre na área da perda de peso e os recentes estudos mostram que o efeito sanfona  (passar por ciclos de perda e reganho de peso) é prejudicial a saúde a longo prazo e aumenta o risco de engordar mais com o tempo.

Desconfie da "pseudociência" que muitas vezes é divulgada pelas mídias. Converse com profissionais de saúde da sua confiança. E como sempre, lembre-se de respeitar seu biotipo, sua fome e suas vontades. Por favor, faça o único jejum interessante: o jejum das informações duvidosas em torno de dietas milagrosas da moda.

Bon appétit

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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