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Blog da Sophie Deram

O mito da relação entre alimentos gordurosos e doenças cardiovasculares

Sophie Deram

06/03/2019 04h00

Crédito: iStock

A nutrição não é uma ciência exata! Isso é evidenciado todos os dias, graças a avanços científicos que passam a compreender melhor como nosso corpo funciona e como os alimentos têm influência no seu funcionamento.

Um dos mitos que durou mais tempo na história da nutrição foi a afirmação de que alimentos ricos em gorduras saturadas estão diretamente associados a problemas cardiovasculares. Acreditava-se que uma dieta rica em gorduras saturadas levaria ao acúmulo de gordura na circulação e que esse acúmulo formaria placas de ateroma que poderiam impedir a passagem do sangue. Essas placas poderiam levar a problemas cardio e cerebrovasculares.

A causa das doenças cardiovasculares – açúcar vs. gordura

No fim dos anos 60 e nos anos 70, estudos de investigação médica no sul da Inglaterra sugeriram que as doenças cardiovasculares seriam causadas, ao menos em parte, por carboidratos refinados como o açúcar, as farinhas brancas e alimentos processados feitos com cereais refinados, bebidas açucaradas. O grupo de cientistas que fez as investigações atribuiu ao excesso de carboidratos simples o desenvolvimento de várias doenças, com ênfase nas cardiovasculares. Porém, os cientistas encontraram dificuldades para fazer aceitar essas conclusões na época.

Ao mesmo tempo, foi publicado o estudo de Framingham que chegava a conclusões totalmente diferentes. Foi o primeiro estudo a associar altos níveis de colesterol no sangue e doenças cardiovasculares. A partir daí, se estabeleceu a ideia de que o aumento no consumo de alimentos ricos em gorduras saturadas e colesterol aumentava os níveis de colesterol no sangue e seria o que levaria a doenças cardiovasculares.

O estudo ficou famoso e essas informações começaram a ser disseminadas aos quatro ventos. A associação das doenças cardiovasculares com o consumo de gorduras saturadas se tornou uma verdade indiscutível. De fato, se pensarmos sem levar em consideração todos os aspectos que podem desencadear uma doença cardiovascular, faz muito mais sentido e parece lógico! Afinal, gordura tem mais calorias do que carboidratos (então engorda mais). E o que é que acumula lá nas veias? Gordura!

Esse ponto de vista foi irrefutável por quatro décadas!

Um parêntese aqui. O que ninguém sabia (e que só veio à tona em 2015) é que, nos anos 70, a indústria açucareira dos Estados Unidos financiou uma série de estudos que enfatizaram que o que causava doenças cardiovasculares era a gordura e não o açúcar. Isso foi um grande escândalo que foi muito bem relatado no documentário "Sugar coated", ou "Doce mentira" em português.

Só que nos anos 90, muitos estudos (sem rabo preso na indústria americana do açúcar) começaram a refutar a hipótese da gordura vilã. Esses estudos foram muito importantes porque mostram com riqueza de detalhes a relação entre dietas e doenças cardiovasculares. Mostram claramente que o consumo de gorduras saturadas tem uma associação pouco significante com as doenças cardiovasculares e que muitos outros componentes da dieta têm uma associação muito mais forte e significante.

A partir daí uma compreensão muito maior veio a tona.

Por exemplo, alimentos ricos em gorduras trans têm muito mais possibilidade de levar ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares do que gorduras saturadas. Esses estudos mostram também que o consumo de peixes, cereais integrais, frutas e vegetais têm um efeito protetor! O ensinamento importante dessa época foi que demonizar um único tipo de alimento e atribuir a ele uma patologia era um pensamento muito simplista. Os cientistas perceberam que a relação entre o consumo de gordura saturada, lipídios sanguíneos e risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares era muito mais complexa do que se acreditava ser.

Velhas ideias voltam

Portanto, depois de passarmos décadas tendo medo de ovos e da gordura da carne, surgiram estudos que nos remetem aos estudos lá do fim dos anos 60 que associavam o consumo de carboidratos refinados e pobres em fibras a doenças cardiovasculares. Estudos mais modernos mostraram que trocar as gorduras saturadas por carboidratos tem pouco efeito no risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. E não ficou só aí… comprovaram que o consumo de alimentos ultraprocessados ricos em açúcar refinado podem ter uma associação maior com essas doenças do que gordura saturada e outros carboidratos refinados como as farinhas feitas de cereais refinados, por exemplo.

Os desafios da nutrição

A Nutrição é uma ciência do vivo, de biologia e não uma ciência exata como matemática ou física… Por anos, as gorduras saturadas foram consideradas as únicas culpadas do desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Hoje se sabe que outros (muitos) fatores são envolvidos no desenvolvimento dessa patologia. Mas cuidado! Agora que a gordura voltou a ser bem considerada, parece que o vilão da vez é o carboidrato ou o açúcar! Não é bem assim. Precisamos de bom senso e cautela: o caminho da moderação.

Por isso, generalização em Nutrição pode ser muito perigoso!

Como você pode ter percebido, comprovar uma relação entre nossa dieta e doenças, não só cardiovasculares, como outras doenças metabólicas como o diabetes, é muito desafiador! Todos os dias mecanismos que explicam como nosso corpo funciona e como ele reage ao que nós comemos ganham novas nuances. Vias metabólicas que tinham conhecimento limitado, hoje podem ser melhor explicadas. E sua associação com nosso corpo de forma geral muda a cada nova descoberta.

Em nutrição, como em qualquer outra ciência, tudo é muito relativo… afinal cada pessoa é única, com seu histórico, seus hábitos, sua genética!

A lição que fica

É difícil mudar paradigmas tão arraigados… muitos de nós crescemos sendo condicionados a ter medo das gorduras e a dar preferência a alimentos com um mínimo de gordura possível! Mesmo os profissionais da área da saúde disseminaram a afirmação de que "gordura saturada entope as veias" por muitos anos! (Aliás, muitos ainda disseminam essa informação.) Isso estampou a capa de jornais e revistas por anos! Foi o destaque de programas de TV por décadas!

É muito complicado mudar nossa mentalidade! Mas a lição que fica é: desconfie quando você lê por aí que um único alimento é responsável por uma patologia, ou que um alimento é milagroso e vai te proteger de alguma outra patologia. Nosso corpo é tão complexo que atribuir a um único nutriente o desenvolvimento ou a salvação de alguma doença é uma ideia muito simplista. A disseminação de notícias como essas são um desserviço e alimentam grandes negócios!

O fato é que uma alimentação equilibrada e rica em fibras pode nos proteger de doenças! Comer de tudo (mas não tudo), respeitando sua fome e seus sinais de saciedade é de grande importância. Isso associado à prática de uma atividade física que te agrade, a um bom sono, a uma melhor gestão do estresse e a uma vida mais tranquila são a chave para uma vida mais saudável e feliz! Isso sim é realmente eficaz na luta contra as estatísticas das doenças cardiovasculares que aumentam todos os dias!

Bon appétit!

Sophie Deram

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.