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Dificuldade em reconhecer emoções pode ter a ver com a relação com a comida

Sophie Deram

07/08/2019 04h00

Crédito: iStock

É provável que, em algum momento, você já tenha sentido dificuldade em descrever suas emoções ou de entender o que realmente você estava sentindo. Isso é normal se acontece de vez em quando, lidar com os sentimentos não é algo fácil. No entanto, se isso acontece constantemente, damos o nome de alexitimia, um traço de personalidade que, além de trazer problemas de relacionamento, pode estar associado com o modo como nos relacionamos com a comida.

O que é alexitimia?

O termo "alexitimia" vem da palavra grega alexithymia, (a = ausência; lexis = palavra; timia = emoção) e significa "sem palavras para a emoção". É um traço de personalidade caracterizado pela incapacidade em expressar e identificar emoções e sentimentos. Quem sofre com a alexitimia pode ter a imaginação restrita, ser dotado de um estilo de pensamento mais utilitário e voltado para as coisas concretas e apresentar dificuldade em diferenciar as sensações físicas das emoções. Também pode ser muito complicado para os "alexes", como também são chamados, lidar com as emoções dos outros, por isso é comum serem vistos como pessoas frias, pouco empáticas e terem problemas para se relacionar.

Na verdade, a incapacidade de reconhecer o que se sente não quer dizer que os sentimentos estejam ausentes, eles estão lá, mas não são identificados nem verbalizados. As emoções ficam aprisionadas, o que contribui para o desenvolvimento de doenças psicossomáticas (aquelas em que temos uma queixa física, como uma dor, mas nenhuma alteração orgânica aparente).

As causas da alexitimia não estão bem definidas, mas acredita-se que podem ser neurológicas, psicológicas, socioculturais ou provenientes de situações traumáticas. Essa dificuldade emocional pode estar relacionada com sintomas de depressão, ansiedade e comportamentos compulsivos. Alguns estudos têm mostrado também relação entre alexitimia e comportamentos alimentares, como comer emocional e transtornos alimentares.

O comer emocional e a dificuldade em reconhecer as emoções

O ato de se alimentar é muito complexo. Pensar a nutrição como o consumo adequado de nutrientes para o bom funcionamento do corpo é um tanto reducionista. Comer envolve a cultura e a sociedade nas quais estamos inseridos, as nossas características biológicas, fisiológicas, psicológicas e emocionais. Tudo está interligado. As angústias, a ansiedade, os momentos de entusiasmo influenciam nossas escolhas alimentares e o modo como nos relacionamos com a comida. Diante de fortes emoções a sensação de fome pode ser suprimida ou o desejo por comida aumentado, na tentativa de aliviar nosso problemas. É o que chamamos de fome ou comer emocional.

Aqueles que não reconhecem suas emoções, estariam, portanto, livres de terem sua alimentação afetada pelas questões emocionais? A resposta é "não".

Um estudo realizado na Holanda e publicado este ano teve o intuito de confirmar a seguinte hipótese: a baixa qualidade da interação entre pais e filhos na infância provoca um aumento da supressão das emoções, levando à alexitimia e por sua vez ao comer emocional.

Para essa pesquisa foram selecionadas 129 crianças e suas famílias. A qualidade da interação familiar com os filhos foi avaliada na infância, aos 15 e 18 meses de idade. Os pais foram convidados a interagir com as crianças durante algumas situações, como montar um quebra-cabeças, e o momento foi gravado em vídeos de 3 a 4 minutos. A regulação emocional, a alexitimia e o comer emocional foram avaliados quando os filhos atingiram 12 e 16 anos, a partir de questionários validados.

As famílias que demonstraram pouca sensibilidade, rejeição e manipulação das crianças na infância geraram uma maior supressão das emoções, que por sua vez foi relacionada à alexitimia e ao comer emocional na adolescência.

Outros comportamentos alimentares associados à alexitimia podem trazer problemas para a saúde física e mental dos indivíduos, como demonstrar preocupação excessiva com o peso e com a alimentação e perda de controle ao comer.

A alexitimia e os transtornos alimentares

A alexitimia também afeta um grande número de pessoas que sofrem com anorexia e bulimia e pode ser um desafio no tratamento dos transtornos alimentares, pois a dificuldade em identificar o que se sente prejudica a forma de lidar com os sentimentos e as emoções. Ambos os transtornos alimentares apresentam dificuldade na regulação das emoções e podem ser uma forma de desviar a atenção das inquietações emocionais para o corpo e para a alimentação.

A bulimia é mais caracterizada pela impulsividade e a anorexia por um temperamento controlado e pouca consciência das emoções. Tanto uma quanto a outra se relacionam com alexitimia. No entanto, um estudo publicado em 2018 e realizado com 114 pacientes adultos que sofriam com a anorexia ou com a bulimia, mostrou que a alexitimia tem um impacto maior na desregulação das emoções da anorexia quando comparada com a bulimia, o que pode contribuir para diferenciar e melhorar os diagnósticos e o tratamento desses transtornos alimentares.

Desconexão com os sinais internos do corpo

Alguns cientistas sugerem que os "alexes", como também são chamados, estejam mais propensos a comer na ausência de fome e de forma exagerada.

Na verdade, eles têm dificuldade para diferenciar sensações físicas de emocionais. Por exemplo, na tentativa de expressar um sentimento de raiva, podem alegar uma dor de cabeça. Com isso, a percepção do estado interno de seu corpo pode ser alterada e o reconhecimento dos sinais internos de fome e saciedade torna-se um desafio, levando-os a ingerir grandes quantidades de comida mesmo sem estarem com fome.

Isso acontece não só com a alexitimia. Hoje em dia é muito comum que essa desconexão com o corpo aconteça com pessoas que fazem dietas restritivas há algum tempo. Elas acabam perdendo a capacidade de perceber a hora de comer e o momento de parar. Em vez de honrarem a fome, privam-se dos alimentos, gerando mais desejo pela comida, vistas como proibidas. É provável que esse comportamento provoque episódios de exagero alimentar com muita frequência ou mesmo compulsão alimentar.

Para termos uma relação mais saudável com a comida e com nosso corpo, precisamos reaprender a ouvir os sinais internos de fome e saciedade e dar menos atenção aos sinais externos, como as crenças e modismos alimentares. Coma melhor, respeite e admire o seu corpo e cuide das suas emoções. Se precisar, procure ajuda de profissionais especializados!

Bon appétit!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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