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Neofobia alimentar pode favorecer diabetes e doenças do coração

Sophie Deram

04/09/2019 04h00

Crédito: iStock

A neofobia (neo = novo; fobia = medo) é um receio ou resistência ao desconhecido. Quando falamos de neofobia alimentar esse medo se dirige aos alimentos.

Todo mundo apresenta um certo nível de neofobia alimentar. Isso nos permite evitar substâncias tóxicas e contribui para nossa evolução biológica. Enquanto a neofobia é uma resistência ao desconhecido, ao que não é familiar, a neofilia é a necessidade pelo novo e a tendência a explorar os alimentos. Algumas pessoas se sentem mais atraídas pela segurança e familiaridade e outras pela variedade e novidade.

A neofobia alimentar é mais comum durante a infância. Não é difícil encontrarmos pais preocupados com o desenvolvimento e crescimento de crianças que não aceitam determinados alimentos, como verduras, legumes e frutas e que quase não come na hora das refeições. A criança examina meticulosamente a comida, mexe o prato, brinca com a comida, mas nada de levá-la à boca. Porém, é também nessa fase que os alimentos introduzidos tendem a ser mais bem aceitos em relação àqueles encontrados pela primeira vez em outros ciclos de vida, como na idade adulta.

Apesar de ser dada mais atenção às crianças que apresentam neofobia alimentar, esse comportamento alimentar pode ser visto em pessoas de qualquer idade, inclusive em adultos, e ter um impacto na saúde, pela seletividade e monotonia da alimentação.

Neofobia alimentar e doenças crônicas não transmissíveis

Um estudo examinou como a neofobia alimentar associa-se com a qualidade da alimentação e com a incidência de doenças crônicas não transmissíveis em adultos da Finlândia e da Estônia.

Mais de 2.000 finlandeses e mais de 1.000 estonianos entre 18 e 83 anos foram avaliados durante 8 anos. Uma Escala de Neofobia Alimentar foi utilizada para identificar o nível de neofobia alimentar. Os participantes da pesquisa deveriam avaliar 10 afirmações (que traduzi aqui livremente) e assinalar o seu grau de concordância em uma escala de 1 (concordo totalmente) a 7 (discordo totalmente).

  1. Eu estou constantemente experimentando alimentos novos e diferentes.
  2. Eu não confio em novos alimentos.
  3. Se eu não sei do que é feito um alimento, eu não o experimento.
  4. Eu gosto de alimentos de diferentes culturas.
  5. Comidas étnicas são diferentes demais para comer.
  6. Em festas eu experimento novos alimentos.
  7. Eu tenho medo de comer alimentos que nunca comi antes.
  8. Com relação à comida, eu sou bem particular.
  9. Eu como de tudo.
  10. Eu gosto de experimentar comidas em restaurantes étnicos.

Além dessa escala, foram coletadas amostras de sangue, medidas antropométricas, como peso e altura, e questionários de frequência alimentar para avaliar a alimentação das pessoas.

Os pesquisadores concluíram que a neofobia alimentar pode estar associada a uma baixa qualidade da alimentação, o que por sua vez pode ter relação com doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes e doenças cardiovasculares. Os participantes com níveis mais altos de neofobia alimentar tiveram uma tendência a uma alimentação mais restritiva e menos variada, com um menor consumo de alimentos ricos em fibras, proteínas e gorduras insaturadas. Eles também apresentaram alterações nos níveis de colesterol no sangue.

Um dado interessante dessa pesquisa nos mostra que o efeito da neofobia alimentar sobre as doenças crônicas independe do peso. Ou seja… se as pessoas estavam com excesso de peso ou não, isso não influenciou no desenvolvimento de diabetes e doenças do coração.

Por isso insisto… na busca pela saúde o mais importante é focarmos no comportamento alimentar, e não no peso. Perder alguns quilos pode até ser desejável e acontecer como consequência da adoção de hábitos mais saudáveis, mas o melhor é apostar em uma alimentação sem restrições e em uma boa relação com a comida para resgatar seu equilíbrio alimentar.

Como evitar a neofobia alimentar?

No mundo em que vivemos um dia o chocolate faz mal, no outro faz bem. Hoje, o ovo pode ser o vilão e amanhã estar liberado como uma panaceia. A informação em excesso parece nos deixar mais desinformados e ansiosos. É tanto terrorismo nutricional… não é de se estranhar que possamos desenvolver medo dos alimentos.

Porém, é importante lembrar que todos nós temos preferências e aversões em relação a determinadas comidas. É natural não gostarmos de alguns alimentos e termos mais desejo por outros. Você não precisa (nem deve) gostar de tudo! O problema é quando nossas aversões são muito exacerbadas e contribuem para uma alimentação muito restritiva e monótona.

Nesse caso, permitir-se comer de tudo, sem demonizar determinados alimentos, pode contribuir para uma melhor relação com a comida e para nos protegermos de um comportamento alimentar neofóbico.

Se você tem filhos, é importante tentar inserir bons hábitos na vida das crianças desde a introdução alimentar. O melhor é oferecer comida fresca e caseira e estabelecer horários para a realização das refeições, sem distrações.

Explorar os alimentos também é uma forma de termos uma relação melhor com a comida. Por um bom tempo a ciência acreditou que a percepção do sabor dos alimentos se dava na língua, cada parte dela seria responsável por perceber um tipo de sabor: doce, amargo, azedo e salgado. Hoje sabemos que, além de existir um quinto sabor, chamado umami, o gosto dos alimentos é algo bem complexo e envolve o sabor que sentimos na boca, o aroma pelo olfato, a percepção das cores, dos volumes e da aparência da comida pela visão, o tato do alimento sendo mastigado e tocando as mucosas da boca e da língua. Comer com todos os sentidos também pode interferir nas nossas crenças e no conhecimento que temos de determinados alimentos, contribuindo para novos comportamentos.

Mas lembre-se, diversos fatores podem influenciar no desenvolvimento da neofobia alimentar: genéticos, biológicos, psicológicos, emocionais e culturais. Vou dar alguns exemplos: todos nós podemos sentir uma certa aversão a comidas que não fazem parte da nossa cultura. Você que gosta de sushis, comeria sushis de insetos?

As pessoas que sofrem com a doença celíaca também podem desenvolver neofobia alimentar pelo receio de apresentarem reações adversas a alimentos que contenham glúten. O mesmo pode acontecer com aqueles que apresentam outras alergias alimentares e emoções negativas associadas à comida.

É preciso identificar os obstáculos que impedem a pessoa de comer certos alimentos, e assim, aos poucos, eles podem ser inseridos nas refeições. Como as causas são diversas e até mesmo incomuns é importante que casos mais severos sejam avaliados por profissionais especializados.

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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