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Insatisfação corporal dos pais influencia comportamento alimentar do filho

Sophie Deram

11/09/2019 04h00

Crédito: iStock

Uma quantidade enorme de pessoas está insatisfeita com sua aparência. Em nossa sociedade sofremos muita pressão para termos um corpo perfeito. O medo de engordar e a obsessão pela magreza são muito comuns. Na busca por uma forma corporal idealizada é comum a procura por dietas restritivas, a realização de procedimentos estéticos de forma indiscriminada e o uso de remédios para emagrecer. As mulheres parecem ser as mais afetadas por esse descontentamento, mas na verdade pessoas de todas as idades e gêneros podem se sentir incomodadas com seus corpos.

As crianças também sofrem com percepções corporais negativas e o mal-estar com a comida pode começar desde cedo. Inclusive, os pais com insatisfação corporal e preocupados com o peso ou com a saúde das crianças, podem tentar controlar o que elas comem e em vez de ajudar, provocar comportamentos alimentares indesejáveis.

Pais insatisfeitos tendem a restringir a alimentação dos filhos

Uma pesquisa australiana publicada na revista Eating Behaviors teve como objetivo examinar se os pais insatisfeitos com seus corpos tendem a adotar práticas de controle da alimentação dos filhos com a intenção de controlar o peso das crianças.

Participaram da pesquisa 48 pais, em sua maioria mulheres (92%), com filhos entre 6 e 9 anos e com peso considerado saudável, sendo 52% meninas.

O foco do estudo foram as crianças na segunda infância (dos três anos de idade até a pré-adolescência), pois esse é um período considerado crítico para o desenvolvimento das capacidades cognitivas e das emoções, além de ser uma fase caracterizada pelo aumento da independência, inclusive em relação à alimentação.

A insatisfação corporal foi avaliada usando uma escala com nove figuras de formas corporais. Os pais e as mães deveriam escolher a forma corporal que consideravam mais próxima de seu tamanho corporal atual e a que desejavam alcançar. A partir da discrepância entre as duas classificações o grau de insatisfação corporal foi calculado.

Em relação às práticas de controle da alimentação das crianças foram analisados três componentes: pressão para comer, restrição para a saúde e restrição para o controle de peso. Os pais deveriam assinalar o nível de discordância ou concordância em relação a diversas afirmações como essas: "meu filho deve sempre comer toda a comida em seu prato", "se eu não orientasse ou regulasse a alimentação do meu filho ele comeria demais suas comidas favoritas", "existem certos alimentos que meu filho não deve comer porque ele pode engordar". Também foi avaliada a preocupação dos pais com o peso das crianças.

Como esperado, os resultados revelaram que a insatisfação corporal dos pais aumentou a prática de restrição alimentar com o objetivo de controlar o peso da criança. Inesperadamente, porém, a insatisfação corporal dos pais não esteve relacionada à pressão para comer ou restrição para a saúde. Isso mostra que, infelizmente, os adultos estão mais focados no peso das crianças do que em comportamentos saudáveis.

Esses achados fornecem evidências importantes de que os pais que adotam práticas de controle da alimentação de seus filhos provavelmente continuarão a fazê-lo ao longo do tempo.

Controlar a alimentação dos filhos nesse estágio de desenvolvimento é preocupante, pois é nessa idade que eles assumem maior autonomia em relação ao consumo de alimentos e podem começar a demonstrar preocupações com a imagem corporal.

A elevada insatisfação corporal dos pais representa um risco para o uso crescente de restrição alimentar com a intenção de controlar o peso, mesmo que exista nesse comportamento uma boa intenção e uma preocupação com a criança.

Os resultados encontrados nesse estudo também sugerem que a associação entre a insatisfação corporal dos pais e as práticas de controle da alimentação influenciam a percepção da imagem corporal dos filhos e desempenham um papel importante na transmissão de problemas alimentares entre gerações. Além disso, mostra que os pais necessitam de apoio para desenvolver atitudes saudáveis em relação ao corpo e à comida, o que promove benefícios para toda a família.

Seria interessante que esse estudo fosse realizado com uma amostra maior de pessoas e com diferentes culturas, pois outras pesquisas indicam que o uso de certas práticas de controle alimentar pode diferir entre grupos socioculturais. Por exemplo, verificou-se que a pressão para comer é mais elevada entre famílias com renda mais baixa e práticas alimentares restritivas mostraram-se mais prevalentes em franceses do que em pais americanos.

Mude sua relação com a comida e com o seu corpo!

Os pais são um modelo para os filhos, muitos dos nossos hábitos alimentares foram aprendidos em casa. Se seu filho vem apresentando problemas na hora de comer ou está com excesso de peso, não se culpe por isso! Ensinar bons hábitos às crianças é um desafio e tanto, que exige tempo e paciência. Você deve fazer a sua parte, mas lembre-se que os pais nem sempre têm "culpa" pelo peso dos filhos. O ato de comer é muito complexo e diversos fatores estão envolvidos nisso.

É importante não fazer restrições alimentares. Dietas restritivas são péssimas para a saúde dos adultos e ainda piores para as crianças, que estão em fase de crescimento e desenvolvimento.

Se a criança tem uma alimentação muito restritiva é provável que ela perca a capacidade de ouvir os sinais internos de fome e saciedade. Ela também pode exagerar quando tiver a oportunidade de comer livremente, longe da supervisão dos pais. Proibir certos alimentos, como doces e balas, também não é a solução. É importante que sejam definidos determinados horários e ocasiões para consumi-los, mas proibir certamente desperta mais desejo por esses alimentos.

Muitas vezes estamos tão preocupados com nossos filhos e com nossa família que esquecemos um pouco de nós. Se você anda preocupado com a alimentação do seu filho, minha sugestão é que você primeiro cuide da sua própria relação com a comida e com o seu corpo, da sua saúde e do seu bem-estar. Essa é uma forma de autocuidado que beneficia a si mesmo e às pessoas ao seu redor.

A partir disso, você naturalmente transmitirá essa relação tranquila com a comida para seu filho e poderá entender as dificuldades da alimentação da criança e realizar pequenas mudanças que podem transformar a rotina alimentar da sua casa. Criar um filho em paz com a comida e o corpo é o melhor presente que você pode dar para ele!

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.