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Comer Intuitivo pode ajudar no controle da glicemia durante a gestação

Sophie Deram

23/10/2019 04h00

Crédito: Istock

O diabetes mellitus gestacional é uma alteração metabólica caracterizada por um grau de intolerância à glicose e níveis de glicemia alterados no período da gravidez. As mulheres que sofrem com o excesso de peso e obesidade apresentam um maior risco de desenvolver o diabetes gestacional, que nos últimos anos tem aumentado em todo o mundo.

Tradicionalmente, esse tipo de diabetes é tratado com terapia medicamentosa, prática de exercícios físicos sob orientação médica e prescrição de dieta, com redução de açúcares e calorias, apesar de não serem recomendadas dietas restritivas durante a gestação.

No entanto, novas estratégias, que buscam mudanças de hábitos e do estilo de vida, têm surgido para enfrentar os problemas de saúde metabólicos. Em vez de fazer dieta, pesquisadores têm mostrado que o melhor é adotar estratégias comportamentais, como o Comer Intuitivo. Você conhece essa abordagem?

Conheça o Comer Intuitivo

O Comer Intuitivo propõe criar uma relação saudável entre corpo, comida e mente a partir de uma maior sintonia com os sinais internos de fome e saciedade, e não externos ou emocionais, e da permissão incondicional para comer.
Dez princípios norteiam o comer intuitivo:

  1. Rejeite a mentalidade de dieta. A mentalidade de dieta é a crença bem comum em nossa sociedade, de que todo mundo deve seguir um conjunto de restrições alimentares com o objetivo de perder peso e moldar o corpo. Para comer de forma intuitiva é preciso abandonar esse pensamento que nos oferece falsas esperanças e traz consequências negativas para a nossa saúde.
  2. Honre a fome. Muita gente tem medo da fome e buscam dicas para cessar essa sensação. No entanto, sentir o estômago vazio ou roncar são maneiras que o corpo encontra para comunicar a necessidade de combustível. Escute o seu corpo e forneça a energia que ele necessita.
  3. Faça as pazes com a comida. Para isso, permita-se comer de forma incondicional, ou seja, sem culpa e com prazer. Perceber determinados alimentos como proibidos só gera mais vontade de comê-los.
  4. Desafie o policial alimentar. Pare de avaliar se você está seguindo as "regras nutricionais". Pense menos nas calorias contidas nos alimentos e desfrute mais das refeições.
  5. Respeite a sua saciedade. Assim como honrar a fome, é importante ouvir os sinais do nosso corpo indicando que comemos o suficiente. Comer sem pressa, saboreando os alimentos e realizando pausas pode ajudar nessa percepção.
  6. Descubra a satisfação. Escute o seu corpo e perceba o que ele deseja. Quando você come o que realmente quer, com prazer e aproveitando as sensações que a comida desperta, percebe que é preciso muito menos comida para decidir que já comeu o bastante.
  7. Lide com suas emoções sem usar a comida. A fome emocional acontece quando comemos na intenção de reprimir ou prolongar sentimentos. Ter consciência das próprias emoções pode ajudar a encontrar maneiras de distração e consolo que não envolvam a comida.
  8. Respeite o seu corpo. Aceite sua genética e seu tipo corporal. Busque mudanças de hábitos pensando na sua saúde e não em alcançar um corpo ideal.
  9. Exercite-se. Pratique exercícios físicos como fonte de prazer e bem-estar. Não se trata de "fechar a boca e malhar", mas de encontrar alguma atividade que te faça bem e contribua para a sua qualidade de vida.
  10. Honre sua saúde. Faça escolhas alimentares melhores, pratique exercícios físicos e cuide de si, com foco na sua saúde.

Comer intuitivo na gravidez e pós-parto

O Comer Intuitivo e a prática dos seus princípios estão associados a um comportamento alimentar saudável e a uma maior satisfação corporal. As pesquisas sugerem que essa abordagem pode contribuir para o controle do colesterol, do diabetes, para um menor risco de doenças do coração e, a longo prazo, pode ajudar a atingir um peso saudável.

Contudo, até então não havia pesquisas investigando os benefícios do Comer Intuitivo na gravidez e no pós-parto. Pesquisadores na Suíça tiveram a iniciativa de explorar o tema e realizaram um estudo, publicado em agosto, com o objetivo de investigar a associação entre o Comer Intuitivo e a saúde metabólica de gestantes com diabetes gestacional.

Participaram da pesquisa 214 mulheres com mais de 18 anos, diagnosticadas com diabetes gestacional entre 2015 e 2017. Para avaliar o Comer Intuitivo as participantes completaram – durante a gestação e em torno de 6 a 8 semanas após o parto – uma escala de comer intuitivo que avalia a tendência a seguir os sinais fisiológicos de fome e saciedade e a fome emocional. As gestantes deveriam completar as escalas com respostas para uma série de afirmações que variavam de "discordo totalmente" (1 ponto) a "concordo totalmente" (5 pontos). Pontuações mais altas indicavam maiores níveis de Comer Intuitivo. Também foi realizado um teste oral de tolerância à glicose, aferidas medidas antropométricas de peso e altura e calculado o Índice de Massa Corporal (IMC).

Os resultados mostraram que o Comer Intuitivo estava associada a níveis adequados de glicemia e menores peso e IMC, tanto na primeira consulta quanto no pós-parto. Os pesquisadores concluíram que aderir a essa abordagem pode representar uma nova estratégia para o controle do diabetes e para atingir um peso saudável durante o período gestacional e pós-parto, sendo importante a realização de mais estudos que investiguem o tema.

Apesar do estudo apresentar associações com o peso, é importante lembrar que este não é o foco do Comer Intuitivo e deve ser visto apenas como consequência de comportamentos alimentares mais saudáveis. Na gestação, tanto o excesso de peso quanto o baixo peso podem trazer consequências negativas para a mãe e para o bebê. Portanto, o foco deve ser em hábitos saudáveis que proporcionem saúde para a gestante e seu filho.

O Comer Intuitivo não se concentra no conteúdo de nutrientes dos alimentos, tamanho das porções ou frequência alimentar, mas sim na mudança de comportamento e no desenvolvimento de uma atitude saudável com a comida, que pode melhorar comportamentos alimentares desordenados, além de ajudar a ter uma relação de conexão com o corpo. Isso pode levar tempo e um profissional nutricionista familiarizado com essa abordagem pode contribuir bastante.

Durante a gravidez é necessário acompanhamento médico e de preferência com equipe multidisciplinar para orientar a grávida, prevenir complicações e proporcionar uma gestação tranquila e sem neuras.

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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