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Entenda por que é ruim tomar decisões com fome

Sophie Deram

30/10/2019 04h00

Crédito: Istock

Você já deve ter percebido que ir ao supermercado de estômago vazio não é uma boa ideia. A fome pode levar as pessoas a fazerem escolhas alimentares diferentes, de forma automática, sem pensar, e a comprarem alimentos mais carregados de energia em quantidade exagerada.

Mas é provável que você não tenha parado para pensar que tomar outros tipos de decisões, que não têm a ver com a comida, também podem ser influenciadas pela sensação de fome.

É o que sugere um estudo recente da Universidade de Dundee, na Escócia. De acordo com os pesquisadores, a fome altera significativamente a tomada de decisões, induzindo a aceitação de propostas desvantajosas, mas imediatas.

Estar em jejum influencia negativamente a tomada de decisões

Fatores ambientais, sociais, psicológicos e biológicos estão envolvidos com o comportamento alimentar. E diversos mecanismos atuam na sua regulação, entre eles, os mecanismos homeostáticos, que inclui diversos hormônios, como leptina e grelina. Eles são conhecidos como os hormônios da saciedade e da fome, respectivamente, pois atuam inibindo ou estimulando o apetite a fim de manter o organismo em estado de equilíbrio. Se sentimos fome, nosso cérebro vai trabalhar em busca de alimentos que tragam energia e recompensas mais rápidas. Essa é uma forma que o organismo encontra para alterar o estado de privação.

No entanto, os pesquisadores Jordan Skrynka e Benjamin Vincent estavam interessados não apenas em entender a influência da fome nas escolhas alimentares, como também nas decisões que não têm relação com o domínio fisiológico.

Eles optaram por focar no efeito da fome, induzido por um curto período de jejum, sobre as escolhas e recompensas relacionadas a três mercadorias: comida, dinheiro e música.

Participaram desse estudo um total 50 pessoas, 28 eram mulheres e 22 eram homens, com idade média em volta de 22 anos, que foram avaliados em dois momentos, com um intervalo de 1 a 2 semanas. Em uma das ocasiões, eles foram convidados a comer duas horas antes do teste e em outra jejuaram por dez horas antes de serem avaliados. Eles foram questionados sobre comida, dinheiro e música quando saciados e quando estavam em jejum.

Os participantes responderam a um questionário sobre desejos intensos por comida com questões que avaliavam: o desejo intenso de comer, a antecipação de reforço positivo que pode resultar do comer, a antecipação de alívio de estados e sentimentos negativos como resultado do comer, preocupação obsessiva com comida ou falta de controle sobre a alimentação e desejo intenso por comida como um estado psicológico.

Foi analisada a disposição das pessoas em esperarem mais tempo por uma recompensa melhor quando bem alimentados e quando em jejum. Para isso, foram colocadas opções hipotéticas para cada mercadoria (dinheiro, comida e downloads de música). Por exemplo, os participantes foram questionados se preferiam receber "uma barra de chocolate agora, ou duas barras de chocolate em 2 horas".

A pesquisa descobriu que a fome alterou significativamente a tomada de decisão das pessoas, tornando-as impacientes e mais propensas a aceitar uma recompensa menos vantajosa, mas que eles poderiam usufruir com antecedência, do que uma recompensa mais vantajosa, mas que só teriam acesso posteriormente.
A condição de jejum levou os participantes a fazerem escolhas piores em relação às três mercadorias pesquisadas, ainda que isso tenha sido mais significativo para os alimentos.

Ou seja, a sensação de fome provocada por períodos de jejum levou as pessoas a aceitarem uma recompensa menor de comida, dinheiro ou downloads de música que seriam entregues com maior rapidez, do que esperar mais tempo por uma proposta melhor.

Os pesquisadores observaram que, ao oferecer às pessoas uma recompensa agora ou duplicar essa recompensa no futuro, elas normalmente estavam dispostas a esperar 35 dias para dobrar a recompensa, se estavam alimentadas. Porém, se estavam famintas, isso caía para apenas 3 dias.

Em resumo, embora fosse previsível que o jejum provocasse uma necessidade de gratificação imediata por alimentos, esse estudo mostra que isso acontece mesmo para itens não alimentares.

Precisamos tomar diversas decisões relacionadas a relacionamentos, finanças, profissão, saúde, alimentação, compras, etc., por isso, é importante saber que a sensação de fome pode afetar nossas preferências e escolhas de uma maneira que não necessariamente percebemos.

Os resultados deste estudo sugerem que devemos ser cautelosos ao tomar decisões de estômago vazio. O jejum pode fazer com que você se importe um pouco mais com uma gratificação imediata à custa de uma recompensa futura potencialmente melhor.

Escute sua fome!

A percepção da fome é uma experiência física que pode se caracterizar por uma pequena necessidade de comida, pelo estômago roncando, sensação de barriga vazia, fraqueza, irritabilidade, falta de atenção e até tontura em estágios mais avançados de privação.

Os sinais de fome são muito importantes. Eles funcionam como um termômetro que indicam quando precisamos comer e quando devemos parar de comer.

É comum as pessoas pularem refeições como o café da manhã, aderir ao jejum intermitente ou seguir dietas restritivas com o intuito de emagrecer. Nesses casos, evita-se comer mesmo que os sinais de fome estejam presentes, surge um medo da fome e ela não é respeitada. As consequências desse comportamento nós já sabemos: desregulação do nosso organismo, maior desejo pela comida e até mesmo risco de compulsão alimentar. Por isso, não faça dieta restritiva!

Mas as consequências metabólicas e para a saúde não são tudo.

Esse estudo mostra que a privação alimentar interfere na nossa tomada de decisões, alimentares ou não, o que pode trazer consequências para todas as instâncias da nossa vida.

Para ter energia ao longo do dia, realizar nossas atividades profissionais, praticar exercícios físico, usufruir de um bem-estar, tomar decisões de forma mais consciente… em qualquer situação o ideal é comer bem! Ou seja, comer de tudo, sem restringir nenhum grupo alimentar e com prazer.

Para isso, escute o seu corpo e honre a sua fome. Planejar suas refeições pode ser uma boa ideia, pois muitas vezes sentimos a barriga roncar nos períodos entre as grandes refeições, mas não temos acesso aos alimentos. Programe-se para preparar algo, levar lanches práticos (como frutas, snacks e sanduíches) ou inserir intervalos na sua rotina para que possa comprar comida em lanchonetes, cafés ou restaurantes.

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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