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Alimentação plant-based não é sinônimo de saúde

Sophie Deram

06/11/2019 04h00

Crédito: iStock

Hoje existe um consenso científico de que privilegiar os alimentos de origem vegetal, como frutas, legumes, verduras e grãos e reduzir o consumo de carne pode contribuir para a saúde das pessoas, diminuindo o risco de diversas doenças crônicas, como as cardiovasculares e o diabetes.

Os padrões alimentares que dão destaque para os vegetais têm, entre eles, a alimentação plant-based ou baseada em plantas. Trata-se de uma forma de se alimentar que promete contribuir com a saúde e com o meio ambiente a partir de um maior consumo de alimentos vegetais e diminuição de alimentos de origem animal.

Mas é preciso ter atenção, pois apenas o fato de um alimento ser à base de plantas não significa que seja saudável.

O que é uma alimentação baseada em plantas?

A própria universidade Harvard definiu os padrões Plant-based, ou baseados em plantas, como "padrões alimentares que se concentram principalmente nos alimentos vegetais. Isso inclui não apenas frutas e legumes, mas também nozes, sementes, óleos, grãos integrais e leguminosas como feijões, por exemplo. Isso não significa que você é vegetariano ou vegano e nunca come carne ou laticínios."

A alimentação baseada em plantas (ou vegetais) consiste em uma redução de carnes, ovos e laticínios e em um maior consumo de grãos integrais, frutas, legumes, sementes, nozes e castanhas, em comparação com uma dieta centrada no consumo de carne.

A alimentação baseada em vegetais pode ser confundida com o vegetarianismo e o veganismo, porém existem algumas diferenças.

Os vegetarianos excluem as carnes, aves e frutos do mar, mas geralmente incluem os ovos, leite e derivados do leite. Já uma alimentação vegana exclui todos os alimentos de origem animal: carnes, aves, frutos do mar, ovos, laticínios e até mel. Além disso, quem adota o estilo de vida vegano não deveria usar produtos de origem animal, como roupas e sapatos de couro e lã, nem cosméticos que foram testados em animais.

Desde sempre sabemos que questões religiosas, filosóficas e éticas (preocupação com o meio ambiente e com os animais, por exemplo) estão envolvidas na escolha por uma forma de se alimentar. É dever do profissional de nutrição acolher o paciente e respeitar as limitações evocadas por ele. No entanto, seja uma alimentação vegana, vegetariana ou baseada em vegetais, elas não são sinônimo de saúde. É preciso pensar no que comemos e no que está por trás da produção dos alimentos, como também em como comemos.

O que comemos? Atenção aos ultraprocessados

O Guia Alimentar para a População Brasileira, editado pela última vez em 2014, é um documento muito importante do Ministério da Saúde que pode nortear os brasileiros em suas escolhas alimentares. Em vez de porções de alimentos e quantidades de nutrientes, o guia nos mostra que existem diversas maneiras de comer e que é importante ter os alimentos in natura como base da nossa alimentação, enquanto que os ultraprocessados devem ser consumidos em menores quantidades, mas gosto de lembrar, não precisam ser excluídos nem vistos como vilões.

Os alimentos in natura não sofrem alterações ao deixarem a natureza e são provenientes de plantas e animais, como frutas, legumes, verduras e carnes frescas. Se esses alimentos passam por algum processo de limpeza, remoção de partes não comestíveis ou métodos de conservação que não envolvam a adição de substâncias, como a refrigeração ou o congelamento, os chamamos de alimentos minimamente processados.

Já os produtos que passam pela indústria e recebem a adição de substâncias culinárias (sal, açúcar e gorduras) são os alimentos processados, como os queijos, pães e frutas em compotas.

Por último, temos os ultraprocessados, que levam em suas formulações industriais vários ingredientes e diversos aditivos para conservar e produzir alimentos mais atrativos. Eles pouco têm a ver com a matéria-prima original, como por exemplo, os salgadinhos de milho, salsichas ou iogurtes aromatizados que encontramos nos supermercados.

Devido a uma procura maior de produtos "plant-based", algumas redes de fast-food têm produzido sanduíches com preços semelhantes aos tradicionais, sem utilizar ingredientes de origem animal em suas formulações. Essa pode ser uma opção para aqueles que desejam restringir o consumo de carne, mas não para aqueles que fazem a escolha por acreditar que estão adquirindo alimentos mais saudáveis. Basta olhar a informação nutricional desses produtos e encontrar grandes quantidades de aditivos químicos que os caracterizam como alimentos ultraprocessados.

Nos últimos meses, Paola Carosella gerou polêmica em sua conta do Twitter ao criticar um hambúrguer feito apenas com ingredientes de origem vegetal. Ela odiou o sabor e considera que é um alimento ultraprocessado, que não tem gosto nem textura de carne e sugere para aqueles que desejam parar de comer carne, buscar alimentos vegetais, mas que não se deixe enganar. Eu concordo que o melhor é sempre dar preferência aos alimentos de verdade, mas respeito o desejo dos consumidores de ter opções adaptadas ao padrão alimentar escolhido por eles. Pois, também é muito importante que tenhamos prazer ao realizar nossas refeições e consigamos compartilhar momentos felizes mesmo no fast-food e mesmo sendo vegano.

Como comer? Não demonize os alimentos e coma com prazer

Nós, seres humanos, não buscamos apenas nutrientes e tipos de alimentos que o nosso organismo necessita, mas também uma comida que seja saborosa, nos proporcione prazer e satisfação.

Comer um hambúrguer (como quer que seja produzido) que não agrada nosso paladar, considerando apenas as questões nutricionais e quantidades de calorias, pode não ser uma atitude muito adequada na busca de saúde. Essa é uma forma de enganar nosso cérebro, que vai desejar cada vez mais comidas que tragam satisfação.

Os alimentos também não devem ser classificados em saudáveis e não-saudáveis, pois seu consumo será adequado de acordo com cada ocasião, disponibilidade, vontades, etc.

Se você deseja comer um hambúrguer de carne, pode também optar por um hambúrguer caseiro, que seja delicioso, proporcione prazer ao comer e seja livre de conservantes. Do mesmo modo, se por algum motivo decidiu retirar a carne da sua alimentação, existem uma enorme variedade de alimentos saborosos que podem fazer parte da sua alimentação e esse processo pode ser feito com a ajuda de um profissional nutricionista que faça um bom acompanhamento e evite deficiência de nutrientes como a vitamina B12, presentes nas carnes.

O mais importante é não demonizar os alimentos. As carnes são alimentos construtores, ricos em proteínas e importantes para constituir nosso corpo se consumidos com equilíbrio. Por outro lado, a alimentação baseada em plantas apresenta vantagens, principalmente em países como os nossos, que tem mostrado um baixo consumo de alimentos vegetais, mas não deve ser vista como uma panaceia.

Gostaria de lembrar que grandes empresas estão envolvidas em campanhas que incentivam uma alimentação baseada em vegetais, levando a OMS a desistir de apoiá-la. E ter esse tipo e alimentação não é imprescindível para a saúde. Você pode comer de tudo e atingir uma vida saudável. Prefira comida de verdade, coma sem culpa e faça as pazes com a comida!

Bon appétit!

Sophie

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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