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Proteína demais também é ruim! Consumo equilibrado é importante para saúde

Sophie Deram

11/12/2019 05h00

Crédito: iStock

É bem comum encontrarmos por aí informações incentivando a adesão a uma alimentação rica em proteínas. Até mesmo médicos, nutricionistas e outros profissionais de saúde nos falam das vantagens de consumir mais alimentos proteicos: perda de peso, queima de calorias, prevenção da obesidade, tratamento da síndrome metabólica e controle do diabetes. Mas será que abusar desse nutriente é realmente vantajoso?

Nem demais nem de menos, consuma proteínas com equilíbrio

As proteínas são nutrientes extremamente importantes para o bom funcionamento do nosso corpo. Elas são formadas por um conjunto de substâncias menores, os aminoácidos, que participam da construção das nossas células, órgãos e tecidos. Existem os aminoácidos não-essenciais, produzidos pelo nosso organismo, e os essenciais, que não conseguimos sintetizar e, por isso, é necessário adquiri-los a partir da alimentação. Boas quantidades de proteínas são encontradas em muitos alimentos tanto de origem animal: carnes, ovos, leite e seus derivados, quanto também em vegetais, especialmente em feijões, grão de bico e lentilha.

Um artigo de revisão publicado na revista Nature enfatiza a importância crucial das proteínas na saúde humana. Uma ingestão insuficiente desse nutriente traz prejuízos para o corpo e para as funções fisiológicas. Provavelmente devido a seus benefícios exista um boom de recomendações para que se consuma mais alimentos ricos em proteínas. Isso é impulsionado por um mercado global de produtos proteicos que deve atingir aproximadamente 90 bilhões de dólares até 2021. No entanto, consumir proteínas em excesso também pode provocar efeitos adversos e essa é a questão de interesse dos autores.

O Institute of Medicine (IOM), uma organização sem fins lucrativos que se dedica a fornecer liderança em cuidados de saúde, propõe, em números, que a ingestão diária de proteína necessária para um adulto é de 0,8g/kg/dia e para um idoso com mais de 65 anos de 1,0 a 1,2g/kg/dia de proteínas. Ou seja, por dia, um adulto saudável que pesa 70kg necessitaria de 56g de proteínas. Só para vocês terem noção do que isso representa, em uma porção de 100g de carne encontramos cerca de 35g de proteínas, em um ovo 7g e em uma concha de feijão 4g. Ou seja, com uma alimentação saudável, sem restrição de grupos alimentares, em que ouvimos nosso corpo e os sinais de fome e saciedade, essa recomendação é facilmente atingida, sendo desnecessário buscar produtos enriquecidos com proteínas.

Na verdade, a partir de diversos estudos, o artigo mostra que comer excessivamente alimentos ricos em proteínas com a intenção de ter mais saúde, emagrecer ou ganhar massa muscular não é uma boa ideia.

Estudos populacionais mostraram que o excesso de proteínas em adultos (consumo maior que 0,8g/kg/dia) pode estar associado ao risco de desenvolvimento de pré-diabetes e diabetes tipo 2. O estímulo à secreção dos hormônios glucagon (responsável pela quebra de glicogênio em glicose) e insulina (que facilita a entrada de açúcar nas células) e um comprometimento da ação deste último ocorre imediatamente após a ingestão de proteínas, o que pode fornecer uma potencial associação entre a alta ingestão do nutriente e o aumento do risco desses problemas de saúde.
Apesar de se acreditar que um maior consumo proteico possa melhorar a função e a massa muscular, como também ajudar as pessoas a perder ou manter peso, uma vez que as proteínas proporcionam uma saciedade maior do que os carboidratos e gorduras, dados de estudos controlados e randomizados não apresentam um efeito benéfico da alta ingestão de proteínas na massa magra durante a manutenção ou ganho de peso.

Acontece que a habilidade do músculo para converter as proteínas ingeridas em tecido muscular é fortemente regulada e apresenta um limite, de modo que os aminoácidos em excesso são degradados. Por isso, se você tem uma alimentação equilibrada e consome alimentos de todos os grupos alimentares, não há necessidade de adquirir alimentos enriquecidos ou suplementos proteicos. Você estará fazendo um gasto desnecessário e não terá efeitos benéficos e até mesmo corre risco de saúde.

Proteínas demais podem afetar a função renal

Uma semana antes da publicação desse artigo, a revista Nephrology Dialysis Transplantation publicou um editoral, alertando para um consumo excessivo de proteínas. Para os autores não se trata de "uma cultura alimentar emergente, mas um dogma predominante em nossa sociedade" que pode ser prejudicial à saúde.

Outros dois estudos publicados anteriormente pela revista são citados. Uma das pesquisas teve como objetivo investigar a associação entre uma dieta rica em proteínas e o declínio da função renal em 9226 indivíduos do Estudo Coreano de Genoma e Epidemiologia. Os pesquisadores concluíram que uma dieta rica em proteínas pode provocar efeitos deletérios na função renal da população em geral.

A outra pesquisa investigou em que medida a alta ingestão de proteínas totais são fatores de risco para uma diminuição acelerada da função renal em pacientes idosos estáveis que passaram por infarto do miocárdio. Essas pessoas, em comparação com a população em geral, podem apresentar uma taxa dobrada de declínio anual da função renal e, portanto, correm o risco de desenvolver doença renal crônica. Questionários de frequência alimentar foram utilizados com 2255 pacientes que tiveram infarto (com idades entre 60 e 80 anos) da coorte Alpha Omega. Uma maior ingestão de proteínas foi significativamente associada a um declínio mais rápido da função renal nesses pacientes.

Muitos estudos anteriores já demonstraram que uma dieta rica em proteínas pode prejudicar a função renal, quando tem predisposição, e é por isso que os nefrologistas recomendam que os pacientes com doença renal crônica adiram a uma dieta pobre em proteínas. No entanto, esses dois estudos sugerem que uma dieta rica em proteínas, frequentemente recomendada como uma maneira de perder peso e manter-se saudável, pode ser prejudicial aos rins de indivíduos com função renal aparentemente normal.

Não categorize os nutrientes em vilões e mocinhos!

Quando se fala em nutrição é muito comum reduzirmos os nutrientes aos seus malefícios ou benefícios. Com isso, também excluímos ou enaltecemos alimentos ricos nessas substâncias. Hoje, é o que acontece com as proteínas. Nos sentimos induzidos a comer cada vez mais alimentos proteicos enquanto demonizamos os carboidratos e gorduras.
Essa é uma visão muito simplista da alimentação. Ela não é formada por vilões e mocinhos. Não é possível vivermos só de proteínas, nem só de carboidratos ou gorduras. É preciso equilíbrio. Em uma alimentação equilibrada não há porque restringir um nutriente ou um grupo alimentar, é possível e importante comer de tudo para adquirir mais saúde. Assim ficamos em paz com a comida e com nosso corpo!

Além disso, se você deseja ou necessita fazer mudanças na alimentação procure profissionais que possam te ajudar nisso e evite prejuízos à sua saúde.

Bon appétit!

Sophie Deram

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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