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Estudo da década de 1940 ainda nos ensina muito sobre restrição alimentar

Sophie Deram

29/01/2020 04h00

Crédito: iStock

A Segunda Guerra Mundial foi responsável pela morte de milhões de pessoas. Um dos grandes assassinos desse conflito foi a fome. Colheitas foram destruídas e o abastecimento de alimentos foi bloqueado em diversos países. Entre 19 de novembro de 1944 e 20 de dezembro de 1945, na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, trinta e seis homens participaram de um estudo clínico que simulava as condições de fome na guerra, coordenado pelo fisiologista Ancel Benjamin Keys. Esse experimento, intitulado The Biology of Human Starvation, foi publicado em dois extensos volumes e ainda hoje é uma referência para entendermos os efeitos da privação e da restrição de alimentos.

O experimento de Minnesota

Keys já era conhecido pela criação das rações K do exército (alimentação portátil de combate transportadas pelas tropas americanas) e estava interessado nos temas relacionados à nutrição. Ele percebeu que milhões de pessoas estavam sofrendo com a fome e existia pouca informação científica sobre seus efeitos fisiológicos. Conhecê-los ajudaria a desenvolver melhores métodos de reabilitação e a garantir a saúde da população no pós-guerra.

O objetivo principal do experimento de Minnesota, como é comumente chamado, era caracterizar os efeitos físicos e mentais da fome em homens saudáveis, observando-os em condições normais, submetendo-os à situação de privação e depois reabilitando-os.

Houve o recrutamento de objetores de consciência (jovens que haviam escolhido ingressar no Serviço Público Civil como alternativa ao serviço militar, geralmente membros de igrejas) e que viram nisso uma forma não-violenta de ajudar na guerra.

O estudo foi planejado para acontecer em um ano, dividido em três etapas: 1) período de 3 meses de padronização em que os participantes receberam uma alimentação de 3200 kcal por dia; 2) período de 6 meses de restrição, no qual receberam uma dieta restritiva com cerca de 1570 kcal por dia; 3) nos três meses finais tiveram um período de reabilitação nutricional. Nele, os voluntários foram divididos em 4 grupos que recebiam ingestões calóricas distintas.

Durante todo o estudo, eles viveram em um espaço alugado para o experimento e moravam juntos em um grande quarto. No período de controle do experimento, receberam a alimentação padronizada, trabalhavam no laboratório e deveriam caminhar cerca de 35 km por semana.

Em 12 de fevereiro de 1945, foi iniciada a segunda etapa do experimento, a equipe de pesquisadores reduziu abruptamente a ingestão calórica dos voluntários. Ele controlava cuidadosamente a quantidade de comida, servindo-lhes duas refeições por dia. As refeições eram ricas em carboidratos e pobres em proteínas, simulando o que as pessoas em guerra na Europa estavam comendo: batatas, nabos, macarrão e pão escuro, todos em quantidades escassas. Apesar da redução de alimentos, os pesquisados deveriam manter seu estilo de vida ativo, incluindo os 35 quilômetros de caminhada por semana.

Ao longo de todo o experimento eles foram pesados, submetidos a testes de força, psicomotores e de resistência, eletrocardiogramas, estudos metabólicos e coletas de amostras de sangue. Eles também eram obrigados a manter um diário pessoal sobre o experimento.

Entre as duas refeições era permitido mascar chiclete, tomar água e café, ilimitadamente. Eles aproveitavam ao máximo esses privilégios, mascando até 40 pacotes de chiclete por dia e bebendo até 15 xícaras de café. A profundidade da tensão psicológica experimentada pelos sujeitos surpreendeu a equipe de pesquisadores. Embora todos parecessem totalmente comprometidos com o experimento antes de começar, a trapaça se tornou uma questão importante, pois um desejo quase incontrolável de procurar comida os dominava. Por esse motivo, alguns deles foram excluídos do estudo.

Os efeitos da restrição alimentar

Os voluntários logo mostraram perda de força e relataram sentirem-se cansados e sem desejo sexual, enquanto que a comida tornou-se uma obsessão. Alguns deles até mesmo colecionavam livros de culinária e receitas, tiveram pesadelos com comida e desenvolveram formas de fazer a pouca comida recebida render. Para isso, colocavam água, ou mantinham a comida na boca por muito tempo para saboreá-la.

Além da perda drástica de peso, o coração diminuiu de tamanho, os batimentos cardíacos caíram, em média, de 55 batimentos por minuto para 35 (uma forma de adaptação que o corpo encontra para economizar energia), desenvolveram edema (retenção de água) e a pele tornou-se grosseira e áspera. Outros efeitos incluíram tontura, dor muscular e coordenação reduzida.

Após essa fase de estudo os voluntários passaram para a fase de reabilitação. Eles foram divididos em quatro grupos que receberam 400, 800, 1200 ou 1600 calorias a mais do que na fase anterior. No entanto, eles sentiam fome o tempo todo. Também tomaram suplementos vitamínicos e protéicos, mas isso também não contribuiu muito. A única coisa que parecia ajudar era o consumo de mais comida.

O estudo concluiu que, para se recuperar de um período de restrição, uma pessoa precisa consumir uma média de 4000 calorias por dia. Após o experimento, alguns voluntários relataram ganho excessivo de gordura corporal por comerem em grandes quantidades, o que não reduzia a sensação de fome.

Você já fez dietas restritivas?

Se você já fez dietas restritivas é provável que tenha familiaridade, em maior ou menor grau, com alguns dos sintomas relatados pelos voluntários do experimento de Minnesota: indisposição, fraqueza e uma obsessão ou desejo aumentado pela comida.

Também é muito comum que após esse período de restrição alimentar acompanhada de uma drástica perda de peso, ocorra um ganho de peso, que chamamos de efeito sanfona, como aconteceu com alguns dos pesquisados.

Isso acontece porque o cérebro odeia dietas e o nosso corpo sente quando falta combustível para desempenharmos as atividades do dia-a-dia. Do mesmo modo, quando passamos por um momento de privação (involuntária, como no caso da fome, ou voluntária, como quando decidimos seguir uma dieta restritiva) o corpo se adapta a essa situação e passa a usar diversos mecanismos para utilizar menos energia, o metabolismo cai e tendemos a armazenar gordura.

Foi isso que aconteceu com os participantes do experimento de Minnesota. E por isso, esse estudo tem sido utilizado até hoje para entender e propor tratamentos para a obesidade, anorexia e alterações de peso relacionados a doenças e lesões.

Um dos legados da pesquisa é mostrar que a nossa alimentação pode alterar tanto a mente quanto o corpo. É uma ingenuidade pensar na saúde física desmembrada da saúde mental. O que faço pelo meu corpo afeta a minha mente, e vice-versa, eles se influenciam mutuamente. Por isso, cuide da sua saúde, transforme sua relação com a comida, coma com prazer e sem culpa!

Bon appétit!

Sophie

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.