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Programas de televisão podem influenciar crianças a comerem melhor

Sophie Deram

19/02/2020 04h00

Crédito: iStock

Atualmente um grande número de crianças e adolescentes sofre com o sobrepeso e a obesidade. Os fatores envolvidos são inúmeros e se relacionam com aspectos genéticos, ambientais, psicológicos, com os hábitos alimentares e o estilo de vida.

Em relação a esse último, os especialistas têm chamado a atenção para o tempo que as crianças e adolescentes passam em frente às telas (televisão, tablets e celulares), pois isso aumenta a exposição à publicidade de alimentos (principalmente os ultraprocessados), leva a uma diminuição do nível de atividade física e da socialização. Ou seja, passar muito tempo em frente às telas traz consequências negativas. Mas será que também é possível usar as telas a nosso favor?

Um estudo experimental publicado em janeiro de 2020 no Journal of Nutrition Education and Behavior nos traz algumas respostas sobre isso ao analisar os efeitos de um programa de culinária nas escolhas alimentares de escolares. Vamos ver?

Programas de culinária e escolhas alimentares

O estudo foi realizado por pesquisadores holandeses com a expectativa de que escolares expostos a programas de culinária que utilizam alimentos saudáveis (frutas, legumes e verduras) têm maior probabilidade de escolher esse tipo de alimento em um momento posterior.

Para testar essa hipótese eles recrutaram 125 crianças de cinco escolas da Holanda, com idade entre 10 e 12 anos que passaram a compor três grupos diferentes. Os componentes de dois grupos foram convidados a assistir uma edição de 10 minutos de um programa de culinária holandês transmitido pela TV aberta. Nesse programa, 24 escolas de 12 províncias holandesas competiam entre si, respondendo perguntas sobre comida e cozinhando um prato.

Um desses grupos foi chamado pelos pesquisadores de "saudável" e seus participantes assistiram a uma edição do programa culinário que utilizava apenas vegetais (tomate, cebola, couve de Bruxelas, rabanete, pepino, melão, feijão, pimentão vermelho, repolho e maçã). O outro foi chamado de "não saudável" e a edição que os participantes deveriam assistir utilizava apenas alimentos com alta densidade energética (hambúrguer, batata frita com maionese, croissants). Para essa categorização dos alimentos em "saudáveis" e "não saudáveis" os pesquisadores se basearam em recomendações holandesas para crianças, provavelmente considerando o fato de ser relativamente comum crianças e adolescentes apresentarem aversão a alimentos vegetais e preferências por alimentos com alta densidade energética. No entanto, gostaria de lembrar que uma alimentação saudável pode e deve apresentar comida de todos os tipos e grupos alimentares, pois o que torna um alimento saudável ou não saudável é o modo como comemos e nos relacionamos com ele.

Já o terceiro grupo, o controle assistiu a um vídeo de 10 minutos de um programa infantil sem relação com comida, mas com um formato semelhante ao do programa de culinária, com escolares competindo entre si, respondendo perguntas e realizando tarefas juntos.

Depois de assistir ao programa de televisão, os escolares de todos os três grupos foram convidados a escolher um desses quatro alimentos como recompensa: dois alimentos considerados "saudáveis" (maçã e pepino) e mais dois alimentos com alta densidade energética (batatas fritas e pretzels salgados).

O que os resultados da pesquisa mostram? Uma probabilidade 2,4 vezes maior de escolher alimentos vegetais entre as crianças do grupo "saudável" (41,3% delas fizeram essa escolha), em comparação com os do grupo controle (em que 22,7% escolheram consumir vegetais como recompensa) e quase 3 vezes maior quando essas mesmas crianças são comparadas com as do grupo "não-saudável". No grupo "não-saudável" (20% escolheram os vegetais) e a diferença entre as escolhas alimentares desse grupo e do grupo controle não apresentaram diferenças significativas.

Crianças aprendem observando os outros

A principal descoberta desse estudo foi que os programas de culinária que utilizam em suas edições frutas, legumes e verduras podem afetar positivamente o consumo desses tipos de alimentos por crianças. Mas por que isso acontece?

Os autores sugerem algumas explicações. Uma delas é que as crianças aprendem observando o comportamento dos outros. Dessa forma, os pais, familiares, amigos e as crianças assistidas na televisão servem de exemplo para os escolares. Em particular, isso se aplica quando eles percebem que os colegas sentem prazer ao cozinhar ou comer alimentos. Portanto, o exemplo é muito mais eficiente do que fornecer apenas informações nutricionais.

Outra explicação sugerida diz respeito ao fato de que a mera ação de ver ou de sentir o cheiro dos alimentos nos dá água na boca e pode gerar desejo por eles. Trata-se de uma resposta condicionada do nosso cérebro, geralmente acompanhada pela salivação e aumento da atividade em áreas cerebrais relacionadas com a recompensa.

Além disso, o efeito que a exposição a opções mais saudáveis tem sobre as crianças e adolescentes é fortemente influenciada por traços de personalidade. Por exemplo, aqueles que não gostam de novos alimentos, o que é conhecido por neofobia alimentar, provavelmente irão demonstrar menos desejo pelos alimentos do que aquelas crianças que gostam de experimentar.

Educar e cozinhar!

Uma das limitações que os autores reconhecem no estudo é a realização do experimento no ambiente da sala de aula, pois esse não é um espaço comum para as crianças escolherem um lanche depois de assistir TV. Por isso, eles consideram importante replicar a pesquisa em um ambiente doméstico e comparar os resultados. Também indicam a necessidade de pesquisas futuras pelo caráter educacional que os programas de culinária podem ter.

Além de informações sobre os alimentos, esses programas proporcionam a aquisição de conhecimentos sobre o ato de cozinhar. Isso é muito importante, pois as crianças e os adolescentes podem demonstrar maior interesse pelos alimentos quando estão envolvidos na sua preparação. Muitas vezes isso não acontece devido a dependência do mundo moderno a alimentos prontos para consumo e pela falta de tempo dos pais no preparo de comida caseira. No entanto, saber preparar os alimentos é um aprendizado que pode ser desenvolvido desde pequeno e que contribui para uma alimentação mais saudável e para um maior consumo de alimentos in natura.

Esse estudo também nos mostra que existem outras formas de educar as crianças em relação à alimentação. Tentar influenciá-las apenas fornecendo informações nutricionais e explicando os benefícios à saúde não parece surtir o efeito desejado. Na promoção de comportamentos alimentares saudáveis, enfatizar o prazer de comer e de preparar alimentos podem ser mais eficazes e eficientes para a saúde do seu filho!

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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