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O que a alimentação ocidental pode fazer com a sua memória e o seu apetite

Sophie Deram

11/03/2020 04h00

Crédito: iStock

O estilo de vida ocidental, associado à modernização e industrialização das sociedades, caracteriza-se pelo sedentarismo e por um padrão alimentar baseado em um alto consumo de alimentos ricos em gorduras (principalmente de origem animal), açúcares e alimentos processados, como também por um baixo consumo de fibras e carboidratos complexos, nutrientes encontrados nos alimentos de origem vegetal (frutas, verduras, legumes, feijões e cereais).

Já é bem difundido entre os cientistas e nas mídias que essa forma de se alimentar pode contribuir para o risco de ter excesso de peso e o desenvolvimento de doenças crônicas. Menos divulgadas são as pesquisas cujos dados mostram que a alimentação e a atividade física afetam também o nosso cérebro. É isso que sugere o estudo realizado por uma equipe de pesquisadores da Austrália, Estados Unidos e Reino Unido sobre a alimentação ocidental.

Entenda melhor a relação entre alimentação e memória

A pesquisa foi publicada na revista Royal Society Open Science e teve a intenção de comprovar estudos anteriores. Muitos deles foram realizados por meio de experimentos com ratos e descobriram que a alimentação ocidental leva rapidamente à inflamação do hipocampo, uma área do cérebro responsável pela memória e aprendizado, atrapalhando seu funcionamento. Um primeiro estudo experimental com humanos mostrou que essa forma de se alimentar provocou prejuízos na aprendizagem e na memória em um curto período de tempo (apenas quatro dias).

Com base nesses achados os pesquisadores decidiram recrutar 110 estudantes com idade entre 17 e 35 anos na Universidade Macquarie, na Austrália. Nenhum deles apresentava excesso de peso e todos tinham uma alimentação considerada saudável. Eles foram divididos em dois grupos: alimentação ocidental e grupo controle.

Cada um deles foi submetido a um teste de memória e aprendizado antes e depois da refeição, juntamente com um questionário sobre o quanto eles gostaram de comer os alimentos consumidos ao longo da semana. Além disso, os pesquisadores pediram aos participantes que mantivessem um diário alimentar e coletaram medidas dos níveis de colesterol e açúcar no sangue.

O hipocampo também atua no apetite

O estudo mostrou que o consumo de uma alimentação ocidental, por apenas sete dias, pode afetar o hipocampo, de modo que os voluntários tiveram um desempenho pior nos testes de memória. Eles também ficaram mais propensos a comer alimentos ricos em açúcares e gorduras logo após terminar uma refeição, ou seja, quando já estavam saciados, uma vez que essa área do cérebro também atua no controle da alimentação.

Os pesquisadores acreditam que esse tipo de refeição pode gerar comprometimentos cognitivos, mas também prejudicar o controle do apetite, o que levaria a comer esses alimentos em excesso. Os mecanismos desse círculo vicioso ainda precisam ser descobertos, mas parece já estar claro que a alimentação começa na cabeça, e não no estômago

O grupo da alimentação ocidental apresentou o pior desempenho nos testes de aprendizado e memória após uma semana, em comparação com o grupo controle. Curiosamente, quando os participantes repetiram os testes três semanas depois, já haviam retornado aos seus padrões alimentares e suas habilidades voltaram ao normal. Os resultados do estudo sugerem que, embora haja alterações no cérebro relacionadas à ingestão de uma alimentação ocidental, o dano pode ser revertido quando a pessoa volta a ter uma alimentação equilibrada.

Então, o melhor é "cortar" o açúcar e a gordura?

Não. Podemos comer açúcares e gorduras, em moderação, e excluí-los da alimentação está longe de ser a solução. Na verdade, a restrição alimentar está fadada ao fracasso e precisamos pensar a alimentação e a nutrição com ciência e consciência para promover mais saúde. Seu cérebro odeia dietas e quando restringimos determinado tipo de alimento, como aqueles ricos em açúcares e gorduras, ele só pensa em comê-los. Isso pode parecer paradoxal, mas se você já fez uma dieta restritiva deve ter sentido isso na pele.

Em vez de sair "cortando" tudo, é necessário mudar o modo como nos relacionamos com a comida e entender que não existem alimentos "proibidos" ou "permitidos". Os alimentos ricos em gorduras e açúcares são muitos palatáveis e é muito prazeroso comê-los, e é preciso consumi-los com moderação, mas por si só eles não serão responsáveis por prejudicar nossa saúde.

Os alimentos nos proporcionam saúde ou consequências indesejáveis de acordo com a frequência e a ocasião em que os consumimos, a quantidade e os sentimentos que temos em relação a eles.
Vou dar um exemplo para que isso fique bem claro. Pense em uma alface. Esse vegetal é considerado saudável, mas já pensou em viver apenas de alface? É certo que essa atitude gere falta de nutrientes no longo prazo e que você não tenha energia para desenvolver suas atividades diárias.

o entanto, a alface e outros vegetais folhosos podem compor uma alimentação saudável e variada que apresente alimentos de outros grupos alimentares. Também não dá para viver comendo apenas brigadeiro, visto por muitas pessoas como uma "bomba de açúcar", mas não há problemas em consumi-lo em determinadas ocasiões ou como sobremesa. Ele também pode fazer parte de uma alimentação saudável.

Portanto, não é necessário "cortar" doce e gordura, mas sim buscar estar em paz com a comida e comer sem culpa. Isso não quer dizer sair comendo tudo exageradamente e sem critério. É exatamente o contrário. Quando comemos em paz e sem culpa podemos saborear os alimentos sem neuras. Dessa forma, conseguimos sentir muito prazer sem necessitar de quantidades exageradas de comida. Isso não é ótimo?

Bon appétit!

Sophie Deram

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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