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Entenda o papel da vitamina D na prevenção da covid-19

Sophie Deram

08/04/2020 04h00

Crédito: iStock

Há alguns dias circula pela internet uma notícia, com base em uma pesquisa que teria sido publicada pela Universidade de Turim, na Itália, de que a vitamina D poderia prevenir a doença causada pelo novo coronavírus e ter bons resultados em pacientes já infectados. Essa informação chamou a atenção das pessoas para essa vitamina e algumas chegaram até mesmo a comprar suplementos. Mas não é bem assim, vamos entender melhor?

Entenda a polêmica com o suposto estudo sobre a ação da vitamina D no coronavírus

Giancarlo Isaia, professor de Geratria e Presidente da Academia de Medicina de Turim e Enzo Medico, professor titular de Histologia dessa mesma universidade redigiram um relatório no qual recomendam aos médicos que garantam níveis adequados de vitamina D à população, principalmente aos infectados pelo novo coronavírus, seus familiares, profissionais de saúde, idosos, grávidas e pessoas que, por diversos motivos, se expõem pouco ao sol.

As recomendações são dadas com base em uma série de pesquisas clínicas sobre a deficiência de vitamina D de uma forma geral e em doenças causadas por vírus. Os estudos coletados mostram o papel desse nutriente no sistema imunológico, sua associação com doenças crônicas, como o diabetes (que é um fator de risco para a COVID-19) e seu efeito na redução do risco de infecções respiratórias virais.

Esses professores tomaram a iniciativa de escrever esse documento a partir dos relatos de colegas de trabalho. Eles informaram que um grande número de pacientes hospitalizados pelo coronavírus apresentava carência de vitamina D.

Assim, o relatório reúne informações importantes sobre a vitamina D, o que inclui sua comprovada atuação no sistema imunológico. Porém, é preciso deixar claro que não foi realizado nenhum estudo pela Universidade de Turim, nem por outra instituição científica, que apresente cientificamente uma associação entre a vitamina D e a prevenção da doença pelo novo coronavírus. O que temos é uma interessante hipótese de pesquisa que precisa ser investigada.

Atenção para o que lê e divulga

Essa hipótese foi divulgada como fato comprovado. Isso gerou uma polêmica em torno da vitamina D, dando brecha para o oportunismo e para a divulgação de informações pouco confiáveis.

O Ministério da Saúde indicou como falsas algumas notícias espalhadas nas redes sociais que afirmavam ser a vitamina D a única forma de proteger-se do novo coronavírus. E aproveitou para enfatizar as recomendações de prevenção para a COVID-19, como: lavar as mãos com frequência e após tossir ou espirrar; evitar o contato próximo com pessoas que apresentem sinais ou sintomas da doença; cobrir o nariz e a boca ao espirrar ou tossir; e manter os ambientes ventilados.

Também foi difundido um vídeo via WhatsApp com fake news envolvendo a Sociedade Brasileira de Infectologia, que redigiu uma nota de repúdio e afirmou jamais ter publicado que preconiza o reforço da imunidade como única maneira de prevenir a infecção pelo coronavírus, nem a imunomodulação usando vitamina D, uma vez que não existem evidências científicas que comprovem essa estratégia. Para esclarecer a população e os profissionais de saúde a Sociedade está divulgando informativos periodicamente. A nota na íntegra pode ser acessada nesse link.

É preciso ter cuidado com o modo como as informações são divulgadas. Isso diz respeito aos grandes veículos de comunicação, mas a população em geral também precisa ser educada para identificar o que é confiável e a não propagarem o que é duvidoso. As descobertas e opiniões são muito difundidas hoje em dia e se você acredita em tudo o que lê sobre alimentação, nutrição e saúde é provável que se sinta mais confuso do que bem informado.

Dar atenção especial ao modo como comunicamos as notícias é importante em qualquer momento, mas chama ainda mais atenção com a pandemia do coronavírus. Muitas pessoas estão se sentindo inseguras e informações confusas, falsas e excessivas podem gerar mais insegurança e estresse, levando a comportamentos que afetam a nossa saúde.

Suplementação só com prescrição!

Um desses comportamentos é a suplementação de micronutrientes sem prescrição. Algumas pessoas ao verem as notícias sobre a vitamina D na melhora da imunidade e na prevenção do coronavírus saíram em busca de suplementos.

De forma geral, as vitaminas e os minerais podem fazer bem ao nosso corpo, porém necessitamos deles em pequenas quantidades e seu consumo deve ser equilibrado. Tanto a escassez quanto o excesso de nutrientes são prejudiciais.

Quanto à vitamina D, cerca de 20% das nossas necessidades provém da alimentação. Peixes, como atum e salmão, laticínios e ovos são alguns dos alimentos nos quais ela pode ser encontrada. Os outros 80% são sintetizados a partir dos raios ultravioletas, por isso, mesmo estando em casa de quarentena sugiro que você reserve um tempinho para tomar um pouco de sol.

Se você não apresenta nenhum problema de saúde que afete o metabolismo da vitamina D ou não tem deficiência comprovada, comer bem, com uma alimentação variada e de alimentos principalmente frescos e caseiros, assim como a exposição solar, são suficientes para ter um aporte adequado e para que essa vitamina desempenhe as suas diversas funções no corpo. Nesse caso, não há porque suplementação. E mesmo em situações clínicas em que o seu aporte deve ser aumentado, se faz necessários exames, avaliações e acompanhamento médico.

Tenha uma boa alimentação e cuide-se!

Também gostaria de frisar que a vitamina D não é o único nutriente de suma importância para o funcionamento do organismo e do sistema imunológico. Diversas vitaminas, minerais, compostos bioativos e outros nutrientes são indispensáveis para a imunidade e para a saúde. Como gosto de dizer, não existem alimentos milagrosos, nem nutrientes que por si sós são capazes de fortalecer a imunidade e prevenir doenças infecciosas como a causada pelo novo coronavírus.

Outros fatores, como os genéticos e os fisiológicos, também influenciam as defesas do corpo e suas diversas funções. Sobre eles não temos tanto controle, mas também é importante administrar o estresse, dormir bem e praticar exercícios físicos.

Quanto a ter uma boa alimentação, insira nas suas refeições alimentos de todos os grupos alimentares (feijões e outras leguminosas, cereais, raízes, tubérculos, frutas, legumes, verduras, laticínios, carnes e ovos), dando preferência aos alimentos in natura. Quanto mais você cozinha, mais fácil é aumentar o consumo desse tipo de alimento. Assim, você irá garantir ao seu organismo todos os nutrientes que ele necessita. E não esqueça de comer com prazer e sem culpa!

Bon appétit em casa!

Sophie Deram

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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