PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Categorias

Medo de engordar na quarentena? 10 dicas para não se preocupar tanto

Sophie Deram

06/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Nesse período delicado do isolamento social fico feliz que muita gente tenha aproveitado para comer melhor, cozinhar e pensar mais na saúde do que no peso. Mas também vejo que há quem se sinta culpado por exagerar na comida, mudar os hábitos ou engordar na quarentena.

Mas sabia que isso é normal? Vou te explicar o porquê.

Saindo da rotina ou comendo com mais consciência?

Mesmo aquela pessoa bem regrada com a alimentação pode ter saído da rotina alimentar nessa quarentena. Se isso aconteceu com você é provável que tenha ganhado um pouco de peso. E quer saber? Isso não é um problema.

Se está preocupado por engordar na quarentena posso dizer que isso é bem compreensível na sociedade em que vivemos e que valoriza a perda de peso, uma sociedade que confunde saúde e magreza. Mas é preciso entender que a alimentação é flexível e variável (não somos máquinas para comer sempre da mesma forma e nas mesmas quantidades) e que o nosso corpo e nosso peso mudam ao longo de toda a vida.

Ganhar peso pode ser uma forma de defesa do corpo e a tendência é que você volte ao peso anterior com a adaptação à situação e retorno à normalidade.

No entanto, se você abandonou uma dieta restritiva que fazia antes desse período e passou a engordar na quarentena, tenho outra hipótese.

Com a dieta restritiva, terceirizamos a fome. Ela passa a ser guiada por fatores externos sobre o quê, quando e como comer e não pelas nossas necessidades fisiológicas.

Não sei se faz sentido para você, mas suponho que o seu corpo, que estava passando por uma restrição alimentar e necessitando de combustível, agora, com essa pausa, esteja sendo ouvido. Ou seja, é possível que você sinta mais fome, coma mais e até ganhe peso porque seu organismo estava pedindo voltar ao seu peso antes da dieta.

Essa "saída" da rotina na verdade pode ser o momento de se alimentar com mais consciência e com mais foco na saúde. Pode ser um momento para fazer as pazes com a comida e o corpo.

Você pode estar buscando mais conforto

Também é normal comer de maneira diferente na quarentena porque nesse momento em que estamos mais ansiosos e estressados você pode querer comer coisas mais gostosas e que proporcionam conforto e prazer. É o que chamamos de fome emocional.

Nesse caso, comemos em resposta a um estado emocional. Se acha que está comendo mais devido às suas emoções, posso garantir que não está sozinho e que isso é normal. Comemos por várias razões e as emocionais são uma delas.

Não é à toa que, de acordo com dados divulgados da Horus, empresa que tem acesso a informações de consumidores das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, os alimentos que tiveram maior procura entre o começo de março e de abril desse ano foram: sorvete (56%), leite condensando (55%), misturas para bolos (19,5%) e salgadinhos (14,4%).

Esses alimentos ultraprocessados e ricos em açúcares estão sendo mais procurados agora porque comê-los pode ser reconfortante e muito prazeroso, em grande parte pela forma como os carboidratos, açúcares, gorduras e sódio estão combinados, tornando-os muito saborosos. Eles não são alimentos proibidos e podem ser consumidos, mas é importante buscar o equilíbrio e a moderação.

Do mesmo modo, é preciso estar atento à fome emocional, apesar de natural, ela pode estar exacerbada e se tornar um problema quando a comida é a única forma encontrada para lidar com os sentimentos e quando leva a um exagero alimentar frequente e geralmente acompanhado de uma sensação de descontrole, trazendo prejuízos para a sua saúde física e mental. Nesse caso, aconselho procurar profissionais de saúde especializados.

Coma com prazer

Esse medo ou preocupação por engordar na quarentena também pode ter relação com a sensação de culpa ao comer.

A culpa vem do excesso de informações que recebemos frequentemente e que classificam os alimentos em "bons" e "ruins" e transformam um simples pão ou um bolo em objeto de sofrimento. Ela não deveria intervir na nossa alimentação, pois comer é uma necessidade e o prazer faz parte do bem-estar. Quando comemos com culpa, comemos mais. Enquanto que comer com prazer e sem culpa nos deixa mais satisfeitos, então comemos menos.

Uma pesquisa estudou essa associação. Os pesquisadores avaliaram se comer um bolo de chocolate com culpa ou como forma de celebração estava relacionado a diferenças de atitudes e comportamento alimentar. Os participantes que associaram o bolo de chocolate à culpa apresentaram atitudes mais negativas e demonstraram menor motivação para se alimentarem de forma mais saudável ou perderem peso do que aqueles que associaram o bolo de chocolate à celebração.

A culpa, na verdade, gera insatisfação corporal, e nos insere em um círculo vicioso, que nos leva a comer mais na tentativa de sanar esse sentimento ruim.

Por isso, deixe a culpa de lado e coma com prazer, para nutrir-se e aproveitar as refeições. Assim, você vai comer de tudo e ter mais bem-estar e saúde.

Dicas para comer sem culpa

Listei 10 dicas que podem ajudar você a estar em paz com a comida e com o corpo. Elas podem ser inseridas na sua vida aos poucos, sempre respeitando o seu tempo.

  1. Crie uma rotina que respeite o seu corpo. A rotina pode ajudar na nossa saúde física e mental, mas é importante não se cobrar tanto nem tentar inserir atividades em excesso;
  2. Não faça uma dieta restritiva. A restrição causa estresse no corpo e já estamos vivendo um momento estressante por si só. Além disso, gera mais desejo por comida e nos insere em um círculo vicioso que pode levar ao ganho de peso e até à compulsão;
  3. Cozinhe mais. Assim você pode comer mais alimentos frescos e caseiros e ainda aproveitar esse momento tão próximo da meditação;
  4. Identifique e respeite a sua fome. Se você tiver os sinais de fome e saciedade como guias ficará mais fácil perceber quando seu corpo está precisando de comida e quando é hora de parar de comer;
  5. Coma com mais atenção e consciência. Faça das refeições um momento para estar presente, sem interferências e seja mais consciente em relação à sua alimentação, vontades e necessidades;
  6. Reconheça e acolha o comer emocional. Não há nada de errado em comer movido pelas emoções. Aceitar e perceber que isso está acontecendo pode ajudar a lidar com isso da melhor forma;
  7. Busque outras formas de lidar com sentimentos negativos. Que tal encontrar outras possibilidades do que comer? Pense bem, se você está triste com alguma coisa, talvez desabafar com um amigo seja melhor do que descontar na comida;
  8. Tire a culpa do cardápio. A culpa só atrapalha e não deve interferir na nossa alimentação. Em vez disso, coma buscando a satisfação;
  9. Faça da refeição um momento de prazer e confraternização. Isso é muito importante para a saúde e para o bem-estar e se você aprecia a companhia dos outros pode tornar o ato de comer ainda mais prazeroso;
  10. Seja mais gentil com você e seu corpo. Existem corpos de todas as formas e tamanhos, aceite-se e pare de se criticar tanto.

Bon appétit!

Sophie

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

Nutrição Sem Neura