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Maioria dos livros mais vendidos de nutrição não se embasa na ciência

Sophie Deram

13/05/2020 04h00

Crédito: iStock

Fazemos escolhas alimentares cotidianamente, influenciados por diversos fatores: sabor dos alimentos, disponibilidade, preço, fatores genéticos, fome e saciedade, cultura, classe social e, entre muitos outros, pelas informações.

As informações sobre alimentação chegam até nós através da educação que recebemos em casa, da escola, e dos meios de comunicação. Rádio, televisão, redes sociais, blogs, sites de notícias e livros de nutrição são alguns dos meios mais comuns na busca por informações.

No entanto, é preciso ter cuidado com a qualidade do que é veiculado. Uma pesquisa norte-americana publicada na Nature avaliou resumos de 100 dos livros mais vendidos de nutrição entre 2008 e 2015. O estudo mostrou que a maioria deles não se baseia em evidências científicas e enfatiza a necessidade de melhorar a disseminação de conhecimento sobre nutrição.

Muitos dos livros mais vendidos de nutrição não são escritos por especialistas em saúde

Além da análise dos resumos selecionados, os pesquisadores buscaram informações educacionais e ocupacionais dos escritores dos livros e observaram que dos 83 autores, 33 tinham um diploma de doutorado (Ph.D ou M.D), 28 eram médicos, apenas 3 eram nutricionistas e os demais mantinham uma ampla gama de empregos, incluindo empresários, personal trainers, blogueiros e atores.

Dos 20 autores que reivindicaram afiliações em universidades, 7 tinham um compromisso universitário atual que podia ser verificado online nos diretórios das instituições.

Quanto ao conteúdo dos resumos, foram extraídas informações sobre as recomendações nutricionais, se sugeria perda de peso, se alegava aumentar a expectativa de vida e se o livro pretendia ajudar a curar ou prevenir doenças.

A perda de peso foi um tema comum nos resumos de 80 dos livros mais vendidos sobre nutrição. Muitos (45) especificaram um tempo para o emagrecimento, cerca de 21 dias para perder em torno de 7 kg.

Além da perda de peso, 31 dos livros prometeram curar ou prevenir uma série de doenças, incluindo diabetes e doenças cardíacas, mas também câncer, demência, artrite, doenças autoimunes, doença de Parkinson, transtornos do espectro autista e depressão.

No entanto, os conselhos nutricionais para alcançar esses resultados variaram bastante em termos de quais tipos de alimentos devem ser consumidos ou evitados, e essas informações eram muitas vezes contraditórias. Particularmente, as recomendações sobre o consumo de carboidratos, laticínios, proteínas e gorduras diferiram bastante entre os livros.

Muitos incluíam fortes opiniões sobre os carboidratos e a necessidade de cortar esses nutrientes da alimentação. Outros discordaram quanto ao consumo de leite e seus derivados e isso refletia nas diversas dietas recomendadas: baseada em plantas, rica em gorduras, rica em proteínas, dieta mediterrânea, paleo, cetogênica e incentivo à substituição das refeições por shakes ou sopas para emagrecer.

Para determinar em que medida as alegações nutricionais foram apoiadas com evidências da literatura científica, o texto completo de 7 dos 10 livros mais vendidos de nutrição foi pesquisado pelos termos "revisão sistemática", "meta-análise" e "randomizado" que se refere a tipos de metodologias de estudos científicos.

Apenas um deles apresentou referências a mais de 5 pesquisas científicas. A maioria continha os nomes de artigos citados no final de cada livro, mas não incluíam citações no texto, dificultando a indicação de onde as informações dos artigos científicos foram incorporadas e se alguma alegação feita no texto correspondia a um estudo específico.

Informações contestáveis

Os pesquisadores listaram afirmações contestáveis ​ou sem fundamento científico encontradas nos livros. Geralmente elas são simplistas, apresentam sugestões para restringir a alimentação e colocam em um único alimento o poder de cura ou emagrecimento. Transcrevi e traduzi livremente algumas delas, e é provável que você já tenha lido algo parecido por aí.

"Os carboidratos estão destruindo seu cérebro".

"Tem pressão alta? O chá de hibisco pode funcionar melhor do que um medicamento para hipertensão e sem os efeitos colaterais".

"Combatendo doenças hepáticas? Beber café pode reduzir a inflamação do fígado".

"Lutando contra o câncer de mama? Consumir soja está associado a uma sobrevivência prolongada".

"A dieta da barriga zero ataca a gordura em um nível genético".

"Pule o café da manhã, pare de contar calorias, coma altos níveis de gordura saturada, exercite-se, durma menos e adicione suplementos inteligentes".

"Veja como cultivar novos receptores para seus sete hormônios metabólicos, fazendo você perder peso e se sentir bem rapidamente".

"Jogue cubos de gelo na água para torná-la mais 'estruturada'".

"Ignore o café da manhã, pois pode fazer você engordar. Consuma até 75% calorias provenientes de gorduras para uma saúde ideal, redução de doenças cardíacas e prevenção de câncer".

O que fazer? 6 dicas para buscar informações confiáveis

Não podemos desconsiderar que alguns dos livros mais vendidos de nutrição estão fornecendo bons ou até excelentes informações, mas é provável que muitos, talvez a maioria, contenham recomendações sem fundamento científico e gerem desinformação. Diante de tantas recomendações e de tanta contradição, fica difícil saber em que confiar.

Os autores do estudo acreditam que esses livros podem ter mais impacto no público do que a literatura científica e apontam a necessidade de que falhas, conflitos de interesse, baixa credibilidade dos autores e a falta de embasamento científico devem ser mais amplamente divulgados para proteger o público da desinformação e para melhorar a disseminação de informações confiáveis.

Além disso, aqueles que buscam se informar também podem identificar informações pouco confiáveis, seja nos livros ou quaisquer outros meios de comunicação. Aqui estão 6 dicas que podem te ajudar nisso.

  1. Busque informações sobre os autores dos livros ou notícias, como também dos pesquisadores e das instituições das pesquisas citadas.
  2. Atente-se para os estudos que mostram correlação e são vendidos como causa. Por exemplo, consumir açúcar em excesso pode contribuir com o diabetes, mas não é a causa desse problema de saúde.
  3. Fique atento às promessas com soluções rápidas, como aquelas recomendações que prometem uma grande perda de peso em um curto intervalo de tempo.
  4. Sem sensacionalismo! Desconfie de advertências relacionadas a um único alimento ("comer macarrão à noite engorda", "açúcar é veneno"). Alegações boas demais para ser verdade também não merecem credibilidade ("tomar água com limão em jejum emagrece" "confira os alimentos que prometem emagrecer").
  5. Preste atenção se existe algum conflito de interesse. Ou seja, observe se a informação está ajudando a vender algum produto.
  6. Informe-se, mas evite o bombardeio de informações. Já sabemos que informação demais podem acabar desinformando. Quanto à alimentação, podemos ficar ainda mais confusos e estressados, quando o melhor é estar em paz com a comida!

Bon appétit!

Sophie Deram

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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