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Conheça 6 princípios para falar sobre obesidade sem estigma

Sophie Deram

03/06/2020 04h00

Crédito: iStock

A obesidade é um problema de saúde pública que atinge o mundo todo. De acordo com dados da FAO divulgados em 2019, 13,2% dos adultos sofrem com a obesidade e a estimativa é de que esses números aumentem nos próximos anos.

É amplamente aceito que o excesso de peso é um fator de risco para muitas doenças crônicas, como hipertensão, dislipidemias, doença do coração e diabetes tipo 2. No entanto, as causas da obesidade são pouco compreendidas, mesmo entre muitos profissionais de saúde, que veem o sedentarismo e a alimentação como os únicos fatores contribuintes, desconsiderando as condições genéticas, psicológicas e ambientais.

As recomendações mais difundidas para prevenir e tratar o excesso de peso são simplificadas em "comer menos e se exercitar mais". Porém, não parecem estar gerando os resultados desejados, pois até hoje nenhum país conseguiu diminuir os números da obesidade.

Diante disso, pesquisadores têm questionado as condutas atuais, que são vistas hoje até como contra-produtivas, e proposto outras formas de olhar para quem convive com a obesidade e o excesso de peso, considerando mais o foco na saúde e o bem-estar e menos a perda de peso em si.

Algo que tem sido bastante questionado é o estigma que pode estar associado à obesidade em diferentes contextos. É comum as pessoas com excesso de peso serem vistas como preguiçosas e sem força de vontade para emagrecer.

A internalização dessas mensagens discriminatórias, infelizmente, muito difundidas em locais de trabalho, escolas, na mídia e mesmo em casa ou nos ambientes destinados ao cuidado em saúde podem ter efeitos negativos na saúde física e mental.

Diante disso, um grupo de profissionais de saúde e pesquisadores do Reino Unido produziram e publicaram na revista The Lancet uma declaração de consenso que fornece orientações práticas, destinadas principalmente aos profissionais de saúde, para poder acolher melhor as pessoas que sofrem com a obesidade.

Eles consideram que a linguagem, o que inclui saber como falar sobre obesidade durante o atendimento, pode aliviar o estigma no sistema de saúde e levar a um tratamento mais eficaz.

A importância da comunicação

Os autores do consenso mostram que palavras específicas como "obesos" e "obesos mórbidos" são percebidas negativamente, embora comumente usadas por profissionais de saúde. Em vez disso, é mais recomendado o uso de expressões como "que tem (sofre) (ou convive) com a obesidade".

Essa é uma forma de colocar a pessoa antes da condição de saúde e de reconhecer que ninguém deve ser definido pelo peso. Para entender a importância disso, basta pensar como seria estranho chamar alguém que enfrenta um câncer de "canceroso".

A declaração traz alguns exemplos de como falar sobre obesidade sem constrangê-los ou desmotivá-los. Veja alguns exemplos:

  • Em vez de: "tenho certeza que os problemas que você tem são todos relacionados ao peso", experimentar: "Você se importaria se falássemos sobre o seu peso?".

Assim, você evita uma afirmação que coloca todo a responsabilidade dos problemas de saúde no peso e usa uma pergunta aberta que dá oportunidade de levantar preocupações e pedir conselhos.

  • Trocar: "Seu IMC ideal, que é a sua altura em relação ao seu peso, deve estar entre 18 e 25kg/m²… entre 30 e 35kg/m² você é considerado obeso… pelas medições que fez hoje, certamente se enquadra nessa categoria". Por: "E como você disse, seu peso subiu… "; "Você disse que gostaria de perder algum peso porque você está se sentindo sem fôlego …".

Abrir a conversa usando as próprias palavras do paciente permite estabelecer maior vínculo e confiança, deixando-o mais à vontade para aderir ao tratamento.

  • Tente substituir "com o seu peso, você realmente precisa fazer mais exercícios", por: "É fantástico que você esteja praticando natação. Não se preocupe, seu peso ainda não caiu, mas o benefício para sua saúde vai além da perda de peso".

Focar no positivo, mesmo na ausência de benefício mensurável, tranquiliza o paciente que pode estar desanimado. O foco deve ser na saúde e não na perda de peso, que virá gradualmente por consequência com as mudanças de estilo de vida.

Como falar sobre obesidade? 6 princípios para reduzir o estigma e acolher mais

Além dessas sugestões, a declaração apresenta 6 princípios adaptados de um guia voltado para o tratamento do diabetes, que podem ajudar no atendimento de quem sofre com a obesidade.

  1. Seja positivo. É importante concentrar-se nas mudanças que estão sendo alcançados durante o tratamento e não nos objetivos que não foram atingidos ainda;
  2. Seja prestativo e solidário. Ofereça ajuda e aconselhamento quando apropriado e oriente as pessoas sobre como obter mais informações confiáveis. Também é importante reconhecer que existem muitos caminhos para tratar o excesso de peso e que o que funciona para um pode não funcionar para todos;
  3. Esteja ciente sobre a comunicação não-verbal. Aprender como falar sobre obesidade da melhor forma não é uma tarefa fácil e a linguagem corporal aberta também é fundamental para promover colaboração e confiança;
  4. Seja colaborativo. Dê preferência a definir metas junto com o paciente e não tenha a perda de peso como uma delas, mas sim como consequências das mudanças traçadas.
  5. Ser compreensivo. Certifique-se de não atribuir culpa, mas de reconhecer as dificuldades enfrentadas pelo paciente, lembrando que existem fatores genéticos e ambientais que independem dele.
  6. Tenha consciência da influência do ambiente. A linguagem também se difunde pelo ambiente. Por isso, para o profissional de saúde é importante que tenha cadeiras adequadas (aquelas com braços e limites de peso não são as melhores opções para atender pessoas com a obesidade). Certifique-se também de que os equipamentos, como balanças e esfigmomanômetros para aferir a pressão, são adequados para todos os tamanhos.

Atenção! Combater o estigma da obesidade é para todos

Iniciativas como esse consenso, que mostram como falar sobre obesidade e como lidar melhor quem está com excesso de peso, são muito importantes. Ajudam os familiares e os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos, etc.) a trabalhar com ciência e consciência, tratar os pacientes com respeito e contribuir para melhores resultados no tratamento da obesidade.

Eu mesma estou organizando um Manifesto para um novo olhar sobre obesidade, mas é bom lembrar que combater esse estigma e discriminação não é uma tarefa apenas para os profissionais de saúde.

De forma geral, nossa sociedade é gordofóbica, ou seja, tem medo e despreza a gordura, seja nos corpos ou na comida, em parte por isso as pessoas estão sempre se perguntando se gordura pode e buscando ter corpos cada vez mais magros.

Portanto, todos nós devemos e podemos fazer algo para evitar a discriminação das pessoas que têm obesidade. Ao contrário do que muitos pensam, culpa e vergonha não motivam ninguém. Coloque-se no lugar do outro e evite comentários carregados de julgamentos sobre aqueles que sofrem com a obesidade.

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.