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Estudo liga vegetarianismo e piora da saúde mental: veja se é isso mesmo

Sophie Deram

01/07/2020 04h00

Crédito: iStock

  • Nota da autora: Apesar da metanálise afirmar uma declaração sem conflitos de interesses, de forma mais discreta, após as referências, encontramos a informação de que o estudo foi parcialmente financiado pela Beef Checkoff, através da Associação Nacional de Produtores de Carne Bovina (dos Estados Unidos).
    Não é incomum o financiamento da indústria estar envolvido em estudos nutricionais. E isso não significa necessariamente que a pesquisa seja falha. No entanto, ainda que os autores afirmem que o patrocinador não teve nenhum papel no desenho do estudo, nem na coleta, análise e interpretação de dados, esse financiamento é uma fragilidade do estudo e é preciso olhar para isso com cautela e atenção.
    O blog reitera o seu compromisso de sempre conhecer a fonte dos financiamentos dos estudos. (Atualizado em 03/07/2020)

O vegetarianismo é uma prática alimentar bastante antiga e era adotada principalmente por questões religiosas. Já hoje em dia, abster-se de carne e ter uma alimentação vegetariana é uma decisão tomada geralmente em prol da saúde, pelo respeito aos animais e como uma atitude de preservação dos recursos do planeta.

No entanto, uma metanálise, ou seja, um estudo realizado a partir de uma análise estatística que integra resultados de diferentes pesquisas, publicada na Critical Reviews in Food Science and Nutrition, mostra que pessoas vegetarianas tendem a apresentar uma pior saúde mental em comparação com aquelas que consomem carne.

Apesar de um estudo apresentar uma associação entre vegetarianismo e saúde mental, não encontrou relações de causalidade, e é preciso cautela para interpretar seus resultados. Aqui, vou ajudar você a entendê-los melhor.

Alimentação sem carne, depressão, ansiedade e automutilação

Os autores do estudo "Meat and mental health: a systematic review of meat abstention and depression, anxiety, and related phenomena" revisaram 18 pesquisas sobre a relação entre vegetarianismo e saúde mental, limitando-se a observar as seguintes condições: depressão, ansiedade, automutilação, percepção de estresse e qualidade de vida.

Os estudos analisados incluíram 149.559 consumidores de carne e 8.584 abstinentes da Europa, Ásia, América do Norte e Oceania e com idade entre 11 e 96 anos.

Os pesquisadores decidiram examinar apenas estudos que forneciam uma distinção clara entre aqueles que comiam carne e os que se abstinham, pois, a alimentação vegetariana refere-se a diversas formas de comer que podem gerar confusão.

Realmente, o termo "vegetariano" é bem abrangente e é comum ser usado para se referir a pessoas que evitam apenas carne vermelha ou branca ou àquelas que consomem dietas predominantemente à base de plantas.

Além disso, existem, entre outras categorizações, os ovolactovegetarianos (que não consome carne, mas comem ovos e laticínios), lactovegetarianos (adotam uma alimentação sem carne e sem ovos, mas consomem laticínios), os veganos que excluem todos os alimentos de origem animal e quaisquer outros produtos, como roupas e cosméticos derivados.

Levando isso em consideração e com base nos resultados estatísticos, dos 18 estudos, 11 relataram associação entre não consumir carne e ter problemas de saúde mental (depressão, ansiedade e automutilação), 3 indicaram uma associação inversa (ser vegetariano associou-se a menor risco desses sintomas) e 4 apresentaram resultados pouco claros, principalmente no que diz respeito à percepção do estresse e qualidade de vida.

Apesar de ter sido encontrada essa associação, não existiu uma relação de causalidade, ou seja, não foi mostrado que problemas de saúde mental são consequência do vegetarianismo. Dos 18 estudos revisados, apenas dois forneceram alguma evidência disso e mesmo assim demonstraram resultados mistos.

Um deles descobriu que os vegetarianos apresentavam humor significativamente melhor do que os consumidores de carne, enquanto outro mostrou que uma alimentação vegetariana era preditor de depressão e ansiedade.

O que explica a associação entre vegetarianismo e saúde mental?

Os autores apresentaram algumas possíveis explicações para a associação entre vegetarianismo e saúde mental. De acordo com eles, pessoas que lutam com problemas de saúde mental podem decidir alterar sua alimentação, como uma forma de autocuidado.

Eles sugerem que não necessariamente a alimentação sem carne promoveria os problemas de saúde mental, mas uma possibilidade é que aqueles que sofrem com patologias mentais poderiam recorrer ao vegetarianismo por várias razões, entre elas por considerar que essa prática alimentar pode ser melhor para a saúde.

Outra hipótese é que pessoas com transtornos mentais, especificamente os alimentares, podem usar o vegetarianismo como uma forma de autoproteção, escondendo o seu problema. Nesse caso, a busca por esse tipo de alimentação aconteceria pela percepção de que uma alimentação sem carne seria mais saudável e permitiria a prática de restrições de forma mascarada.

Por outro lado, é importante lembrar também quem não consome carne e outros alimentos de origem animais podem apresentar deficiência de vitamina B12, nutriente que não é encontrado em quantidades significativas nos vegetais e cuja carência pode estar relacionada a problemas de saúde mental como a depressão.

Em relação aos benefícios de ser vegetariano, como a melhora da saúde física e diminuição da mortalidade, outros estudos apontam que não estão associados necessariamente à retirada da carne da alimentação, mas ao estilo de vida que pode ser adotado pelos vegetarianos, o que inclui atividade física, baixo consumo de álcool e drogas, e não fumar.

Pesquisas futuras sobre vegetarianismo e saúde mental

Se vegetarianos realmente têm tendência a terem uma pior saúde mental ou se pessoas com problemas de saúde mental é que tendem a tornar-se vegetarianas é uma dúvida que precisa ser respondida com pesquisas futuras, como apontam os pesquisadores.

Outra questão indicada no estudo diz respeito a refletir sobre o fato de que um grande número de veganos e vegetarianos voltam a comer carne. Os pesquisadores questionam se seria um impulso biológico na busca por determinados nutrientes ou se os benefícios percebidos são esmagados pela forma de se alimentar do mundo ocidental.

Por fim, chamam a atenção para que as pesquisas futuras considerem os fatores que levam à abstenção de carne, como práticas religiosas, questões éticas, saúde, ou status socioeconômico (uma vez que pessoas economicamente desfavorecidas podem não consumir carne devido ao seu custo relativamente alto) por considerarem que essas percepções estabelecem distinções entre os comensais.

5 dicas para quem busca uma alimentação sem carne

Acredito que uma alimentação com ou sem carne pode ser saudável e adequada. Algumas pessoas podem tomar a decisão de diminuir o consumo ou abster-se totalmente dos alimentos desse grupo alimentar. Isso pode ser feito sem pôr em risco a saúde física e mental, mas alguns cuidados com a alimentação devem ser tomados em qualquer caso.

Por isso, trago aqui 5 dicas para quem escolheu seguir uma alimentação sem carne e para que vegetarianismo e saúde mental possam convergir para a qualidade de vida e bem-estar.

  1. Prefira os alimentos in natura. Essa é uma dica de ouro para quem consome carne ou não. Existem muitos alimentos industrializados vegetarianos e veganos que podem proporcionar maior praticidade. Como os alimentos convencionais, contém aditivos alimentares e devem ser consumidos com moderação. Portanto, tenha os alimentos in natura como a base da sua alimentação. Uma ótima forma de conseguir isso e ainda descobrir novos sabores, é cozinhando mais!
  2. Varie na alimentação. As carnes constituem apenas um grupo de alimentos, uma infinidade de outras opções estão disponíveis. Aproveite essa diversidade e tenha uma alimentação variada com alimentos de todos os outros grupos alimentares e todos os nutrientes necessários para o seu corpo. Procure ajuda de um nutricionista para orientar você.
  3. Socialize e coma junto. Um dos maiores prazeres da alimentação é comer junto e contar com a companhia das pessoas. Não deixe de se reunir porque a sua prática alimentar é diferente da maioria das pessoas. Celebre e lide com as diferenças.
  4. Conte com a ajuda de profissionais. Uma alimentação vegetariana estrita ou vegana pode levar a deficiências nutricionais, principalmente da vitamina B12, presente nos alimentos de origem animal. Nesse caso, recomenda-se a suplementação deste nutriente com o acompanhamento de um nutricionista ou médico.
  5. Observe seu comportamento alimentar. Talvez a sua decisão tenha sido tomada com base em questões éticas e de saúde e é provável que isso traga benefícios para você. No entanto, também é importante prestar atenção se isso traz algum sofrimento relacionado à alimentação. Fique em paz com a comida e se você identifica que algo está errado, aconselho buscar ajuda de profissionais especializados em saúde mental.

Bon appétit!

Sophie Deram

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

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