PUBLICIDADE

Topo

Histórico

Categorias

Usar informação nutricional online tem ligação com transtornos alimentares

Sophie Deram

29/07/2020 04h00

Crédito: iStock

O uso da internet como fonte de informações nutricionais é bem comum, pois trata-se de um espaço acessível para pessoas de todas as idades, principalmente adolescentes.

De acordo com o Pew Research Center, em 2018, 95% dos adolescentes norte-americanos tinham acesso à internet via smartphone e 45% relataram estar online quase constantemente. No Brasil, a pesquisa TIC Kids Online 2019 informa que 24,3 milhões de brasileiros entre 9 e 17 anos (cerca de 89%) são usuários de internet no país.

A internet é uma fonte de informações sobre saúde para os adolescentes, o que inclui alimentação e exercício, e existe uma grande quantidade de conteúdos sobre esses temas nas redes.

Além disso, esse meio permite aos jovens se informarem anonimamente, uma vez que nesse período da vida é comum uma desconfiança de que os profissionais de saúde compartilhem suas informações com seus pais. Também é possível que os jovens usem a internet para complementar as informações que recebem na escola, com familiares ou colegas.

No entanto, não devemos acreditar em tudo o que lemos sobre alimentação. Dependendo da fonte, as informações encontradas nem sempre têm credibilidade e podem levar a sérias implicações comportamentais e de saúde. Por exemplo, na internet são encontradas diversas dietas restritivas, que como se sabe, têm influência no desenvolvimento de transtornos alimentares.

Diante disso, um grupo de pesquisadores da Universidade da Florida, realizaram um estudo para avaliar uso da Internet como fonte de informações nutricionais e sua relação com a percepção de peso e transtornos alimentares em adolescentes.

Como foi pesquisada a relação entre o uso da internet como fonte de informações nutricionais e os transtornos alimentares?

Os pesquisadores avaliaram se a frequência de uso de diferentes fontes da internet para obter informações nutricionais difere entre adolescentes com peso saudável e com excesso de peso, com base no peso real e em como eles se percebem, e se as relações entre diferentes fontes da internet utilizadas levam a comportamentos de risco para transtornos alimentares.

Uma das hipóteses levantadas é de que haveria um maior uso da internet como fonte de informações nutricionais entre os adolescentes que se consideravam com excesso de peso em comparação com aqueles que se consideravam com peso considerado adequado. E que uma busca de informações mais frequente na internet estaria associada a comportamentos de risco para transtornos alimentares.

O estudo foi realizado com 167 adolescentes entre 10 a 15 anos, considerando-se que essa faixa etária corresponde a um período de desenvolvimento fundamental, caracterizado por maior autonomia e exposição a pressões sociais.

Para testar as hipóteses, os adolescentes responderam a um teste de atitudes alimentares para identificar comportamentos de risco para transtornos alimentares; foram avaliados quanto ao modo como se percebiam (abaixo do peso, um pouco abaixo do peso, peso normal, um pouco acima do peso ou acima do peso); foi feita a classificação do Índice de Massa Corporal (IMC); e, por fim, os participantes relataram com que frequência obtinham informações nutricionais das seguintes fontes da internet: sites profissionais, sites pessoais, mídias sociais, sites comerciais de perda de peso e fóruns.

Percepção de peso é mais confiável para indicar comportamentos de risco para transtornos alimentares que o IMC

Os adolescentes que se consideravam um pouco acima do peso ou acima do peso relataram usar sites pessoais, sites comerciais de perda de peso e mídias sociais para obter informações nutricionais com mais frequência do que aqueles que não se consideravam um pouco acima do peso ou acima do peso.

De acordo com os pesquisadores, as informações desses sites seriam menos confiáveis quando comparadas com os sites de organizações de saúde designadas (Ministério da Saúde e Universidades), que tendem a conter informações mais precisas e baseadas em evidências. Porém, é mais provável que sejam sites menos atrativos, com mais informações em forma de texto e menos recursos visuais e interativos, elementos preferidos pelos jovens usuários da internet.

A frequência de uso de fontes da internet para informações nutricionais não diferiu com base no peso real. E o maior uso da internet como fonte de informações nutricionais esteve relacionado a uma maior presença de comportamentos de risco para transtornos alimentares.

Por outro lado, adolescentes com comportamentos de risco para transtornos alimentares podem procurar esses sites com mais frequência do que os adolescentes que não apresentam esses comportamentos, resultando em uma relação positiva entre atitudes e comportamentos de risco.

Não houve diferenças na frequência de uso de qualquer um dos sites de informação nutricional entre adolescentes com sobrepeso ou obesidade e aqueles com peso considerado saudável. Isso mostra que a percepção de peso é um melhor indicador de intenções de controle de peso e comportamentos de risco para transtornos alimentares do que o IMC, em adolescentes.

Mais estudos sobre o uso da internet como fonte de informações nutricionais são necessários

É importante apontar que esse estudo apresenta limitações. Foi utilizado um desenho transversal, ou seja, a coleta de dados foi realizada em um determinado ponto do tempo, o que impede tirar conclusões de causalidade.

Ou seja, não sabemos se adolescentes com comportamentos de risco para transtornos alimentares buscam mais o uso da internet como fonte de informações nutricionais ou se, na verdade, o conteúdo desses sites é que promove esse tipo de comportamento ao oferecer conselhos inadequados de perda de peso rápida. Portanto, mais pesquisas são necessárias para elucidar esse tipo de questão.

Apesar disso, esse estudo apresenta a necessidade de intervenção para garantir que os adolescentes tenham acesso a informações nutricionais confiáveis e desenvolvam hábitos e comportamentos alimentares saudáveis.

De uma forma geral, os adultos devem incentivar os adolescentes a discutir informações nutricionais que encontram na internet. E os profissionais de saúde e a comunidade escolar podem planejar atividades educativas para que os jovens aprendam como interpretar e julgar a qualidade das informações nutricionais.

Com o apoio de todos, torna-se mais fácil para as crianças e adolescentes enfrentarem as dificuldades alimentares e terem uma relação de paz com a comida e com o corpo.

Bon appétit!

Sophie Deram

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

Nutrição Sem Neura