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Vício em comida: mito ou verdade? Entenda melhor essa questão

Sophie Deram

26/08/2020 04h00

Crédito: iStock

Não é incomum as pessoas acreditarem que os alimentos são viciantes e podemos encontrar nas mídias uma quantidade considerável de informações sobre como superar o vício em comida. Por outro lado, no meio científico ainda existem muitas controvérsias e perguntas a serem respondidas sobre isso.

Muitas explicações baseiam-se no sistema de recompensa, relacionado, entre outras coisas, à satisfação e bem-estar.

Ao comer e consumir determinados alimentos são liberados neurotransmissores, como a dopamina, responsáveis pela sensação de prazer. Dessa forma, se a ação é prazerosa, tendemos a repeti-la

Isso também acontece com o consumo de drogas, o que serve de argumento para afirmar que comida vicia. Por outro lado, esse argumento cai por terra quando se descobriu que outras atividades também ativam o sistema de recompensa, por exemplo, quando praticamos atividade física.

Para além dos mecanismos de recompensa, outras questões intrigam os cientistas. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, questionam se, na verdade, acreditar que o vício em comida é real, não poderia contribuir para uma maior falta de controle em relação à alimentação, levando a comportamentos alimentares indesejados.

Os resultados da pesquisa são interessante e foram publicados em forma de artigo na revista Appetite.

Acreditar que o vício em comida é real pode afetar o comportamento alimentar

O objetivo do estudo realizado por esse grupo de pesquisadores foi investigar os efeitos no consumo alimentar e a autopercepção das pessoas como "viciadas em comida" diante da crença de que o vício em comida é real.

Participaram da pesquisa 60 voluntários, 72% deles mulheres e 28% homens, divididos aleatoriamente em dois grupos. Os participantes de um desses grupos deveriam ler um artigo de jornal com afirmações de que vício em comida é cientificamente comprovado, e o outro grupo recebeu um artigo de jornal afirmando ser um mito.

Uma proporção significativamente maior de participantes que leram o artigo de jornal confirmando o vício em alimentos se autodiagnosticaram como viciados em alimentos (57% em relação aos 27% do outro grupo). Também foi observado nesse mesmo grupo um maior consumo de alimentos considerados reconfortantes, como aqueles ricos em gorduras e açúcares.

Essas descobertas sugerem que o endossar a existência de adicção alimentar pode encorajar as pessoas a se autodiagnosticarem como viciadas e a consumirem mais alimentos reconfortantes.

No entanto, não foi determinado até que ponto se perceber como alguém viciado em comida influencia a ingestão de alimentos e como isso pode variar com as diferenças individuais e o contexto alimentar.

Por que as pessoas se denominam viciados em comida?

A diferença marcante no número de participantes que se consideraram viciadas em comida leva a crer que podemos ser influenciados a atribuir ao vício a justificativa para nosso comportamento alimentar. Por isso, os autores defendem que a maioria dos relatos de vício em comida não devem ser vistos como um comportamento aditivo.

Algumas hipóteses sugerem, na verdade, uma relação de ambivalência com os alimentos. A ambivalência, nesse caso, diz respeito a perceber um alimento como "bom, mas não saudável". Por exemplo, um chocolate pode ser visto como muito gostoso e ao mesmo tempo como um alimento que deve ser evitado.

Pensar assim pode ter consequências e levar à restrição de determinados alimentos, fazendo com que o desejo pela comida se torne mais intenso. Lembrem-se que tudo o que é proibido é mais gostoso!

Assim, as pessoas podem perceber que é difícil resistir à comida e, por isso, muitas vezes consideram que são viciados nela, se autodenominando "chocólatras" ou "viciados em alimentos", pelo simples fato de comer um pedaço de chocolate todos os dias.

Para os pesquisadores, essas descobertas também lembram um pouco um fenômeno conhecido como Síndrome do Estudante de Medicina, uma tendência de os estudantes relatarem sintomas que são consistentes com a última doença que estudaram. Ou seja, lendo artigos de jornal que comprovam a adicção alimentar, os voluntários acabaram se sentindo viciados em comida.

5 dicas para esquecer o vício em comida

Em vez de pensar que a comida vicia, minha sugestão é que você faça as pazes com a comida. Mas como? Aqui tenho 5 dicas para que você tenha uma boa relação com os alimentos.

1. Abandone a mentalidade de dieta. Em nossa sociedade somos levados a acreditar que é necessário estar sempre fazendo uma dieta. Isso implica adotar um sem número de restrições: cortar o açúcar, a gordura, os alimentos que contém glúten e lactose, evitar alimentos calóricos, e até mesmo ficar sem comer por um tempo!

Geralmente esse comportamento se justifica pelo desejo de ter mais saúde ou um corpo magro. Mas já sabemos que as dietas restritivas não funcionam e não contribuem para um estilo de vida adequado, e que existem pessoas saudáveis de todos os tamanhos e formas.

2. Coma de tudo. Com exceção de alergias ou intolerâncias comprovadas, não há nenhum tipo de alimento que precise estar ausente da sua alimentação. Você pode sim incluir o açúcar na sua rotina sem dietas, e o mesmo vale para as gorduras, para os alimentos que contêm glúten e lactose. Consuma alimentos de todos os grupos alimentares e dê preferência aos alimentos in natura, assim você terá todos os nutrientes que seu corpo necessita para funcionar bem.

3. Perca o medo da comida. Um chocolate não é uma bomba calórica e viciante. Comida é só comida. Nenhum alimento por si só vai te engordar ou tirar sua saúde.

Se você tem medo de determinados alimentos, é comum que a vontade e comê-los aumente. Por outro lado, saborear os alimentos sem medo diminui as chances de exagerar na comida.

4. Ouça seus sinais de fome e saciedade. Nosso corpo envia mensagens para indicar que precisa de energia e nutrientes. Do mesmo modo, ele sinaliza que atingiu a saciedade. Esteja atento a esses sinais, eles são parte da nossa conexão com o corpo e nos ajuda a comer em quantidades adequadas, nem demais nem de menos.

5. Por fim, coma com prazer. Além de comer quando estamos com fome e parar quando estamos saciados, é importante encontrar prazer na comida. Atendo muitas pessoas em meu consultório que consomem certos alimentos apesar de não gostar deles. A comida, além de nos fornecer energia, é uma fonte de prazer. Aproveite o momento das refeições!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.