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Blog da Sophie Deram

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Alimentos ultraprocessados causam dependência em crianças?

Sophie Deram

26/06/2019 04h00

Crédito: iStock

A prevalência de obesidade e doenças crônicas relacionadas à alimentação tem crescido muito rapidamente. E isso não tem acontecido só com adultos… o sobrepeso e a obesidade tem atingido cada vez mais crianças e adolescentes no mundo todo. E o Brasil tem seguido nessa mesma direção. Os órgão de saúde têm alertado que, se uma a cada 3 crianças sofria de desnutrição há 40 anos atrás, hoje, 1 a cada 3 crianças têm sobrepeso!

O que aconteceu? Com certeza isso não pode ser uma questão somente genética pois o que mudou nesse período não foi nossa genética, foi nosso meio ambiente, especialmente o meio ambiente alimentar.

Muita coisa mudou nas últimas décadas. Nesse mesmo período temos observado paralelamente às mudanças nos padrões alimentares e nos hábitos de vida, mudança na produção dos alimentos e um aumento na taxa de sedentarismo. As brincadeiras que, antes eram realizadas ao ar livre, hoje acontecem em frente a telas de telefone, computadores e televisão.

Evidências científicas têm apontado que esse quadro tem mudado nos últimos anos, entre outros fatores, principalmente por conta da mudança de estilo de vida e especialmente da inversão de padrões dietéticos. Essa inversão é caracterizada pela substituição da comida tradicional, fresca e caseira, por comidas e bebidas altamente processadas prontas para o consumo.

A procura do culpado

Para tentar entender esse boom no crescimento dos índices sobrepeso e obesidade, investigadores focam, tradicionalmente, em nutrientes, alimentos e padrões alimentares. E isso tem trazido muita confusão pois a cada estudo como esse sendo publicado, as pessoas têm a tendência de culpabilizar um nutrientes ou outro, um alimento ou outro.

Porém tem uma coisa que todos esses estudo publicados têm em comum: é a recomendação de evitar alimentos ultraprocessados.

Então, estudos que investigam a industrialização dos alimentos como um problema têm tido um foco maior nos últimos anos e a culpa que esses alimentos têm no processo de ganho de peso e desenvolvimento de doenças crônicas tem sido comprovada em alguns trabalhos científicos.

Processos cada vez mais sofisticados tem alterado o que antes era comida fresca e caseira, comprometendo a estrutura dos ingredientes, o conteúdo nutricional e o sabor desses alimentos. Isso trouxe algumas vantagens como aumento da disponibilidade de alimentos, mesmo fora de época, diminuição do preço e aumento da vida de prateleira de muitos alimentos. Porém esses alimentos são também conhecidos por ter um excesso de açúcares, gorduras e aditivos químicos.

Esses alimentos se destacam pela publicidade por trás deles. Tem outdoor para todo lado, propaganda em todas as telas possíveis, no jornal, na revista, na prateleira do supermercado, no horário nobre da tevê. Esses alimentos estão sempre ali em destaque, com suas embalagens, sempre coloridas e chamativas. Um prato cheio para crianças e adolescentes. E isso tudo junto contribuiu muito para a mudança dos hábitos alimentar nessa faixa etária.

Alimentos industrializados são muito mais palatáveis

Em 2016 saiu a classificação NOVA para os alimentos em função do grau de processamento. Aqui vou usar como exemplo um único alimento que está muito presente na mesa de todos os brasileiros para exemplificar como ele se apresenta em cada um desses grupos: o milho!

  • Alimento não processado ou minimamente processado: o milho in natura ou cozido;
  • Alimento processado: milho em conserva;
  • Alimento ultraprocessado: salgadinho de milho.

Essa categoria dos alimentos ultraprocessados engloba o grupo de formulações industriais que são manufaturadas usando uma série de ingredientes e uma série de processos. A maioria desses produtos possuem pouco ou quase nada do alimento in-natura original. Para ficar com sabor, textura e cor parecidos ao alimento original, ingredientes cosméticos e aditivos químicos são usados, tornando esses alimentos hiper palatável (com sabor pronunciado e irresistível).

Esses alimentos já vêm prontos para o consumo ou aquecimento e isso não requer nenhuma preparação culinária o que torna esses produtos tão atraentes por serem baratos e convenientes.

Ultraprocessados são viciantes para crianças?

Um estudo publicado em abril 2019 observou que esse os alimentos processados podem causar dependência em crianças com sobrepeso.

O artigo lançou um alerta pois mostrou que 96% das crianças que consumiam esses alimentos ultraprocessados em grande quantidade tiveram algum tipo de comportamento relacionado à dependência e que 24% dessas crianças tiveram um diagnóstico de dependência desse tipo de alimento com um consumo mais alto de alimentos açucarados e ultraprocessados. Entre os alimentos citados mais consumidos por essas crianças estava os biscoitos/bolachas/cookies e embutidos como salsicha e presunto.

Segundo os autores, "saber identificar os alimentos que podem estar associados a comportamentos relacionados à dependência é muito importante para tratar corretamente e prevenir a obesidade infantil, o que continua a ser um grande problema de saúde pública mundial".

Mas o alimentos ultraprocessados são os únicos culpados?

Seria muito fácil se existisse um único culpado. Como sempre tentamos achar o culpado de todos os males.

Tinha obesidade antes dos ultraprocessados e eles não são os únicos culpados. O que é verdade é que um consumo frequente pode ocasionar uma dependência e um paladar mais habituado aos gostos doces intensos, deixando os alimentos frescos e caseiros, frutas e legumes menos atraentes.

A problemática é muito mais complexa e uma única resposta às nossas questões jamais vai existir! Entender isso é de extrema importância para que nós, e mesmo nossos filhos, tenhamos uma relação mais tranquila com a comida!

Estamos entrando em uma era onde o problema de saúde pública não é somente o excesso de peso ou obesidade, mas também um aumento de transtornos alimentares. Cuidado com as proibições rígidas que podem fazer seu filho comer escondido ou exagerar nas festas e depois sentir muita culpa e gerar assim uma vida difícil com a comida e o corpo.

Criar um filho em paz com a comida é o melhor presente que você pode dar para ele!

Os alimentos ultraprocessados são, com certeza, muito recompensadores, práticos e baratos e isso torna a montagem das lancheiras muito mais rápida. O problema surge quando esse tipo de alimento é oferecido às crianças numa frequência muito grande. Esses alimentos devem ser consumidos ocasionalmente dando preferência a alimentos frescos e preparações culinárias feitas em casa que podem ser tão saborosas quanto.

Vale a pena rever a oferta que você tem de alimentos ultraprocessados em casa e diminuir o consumo,introduzindo cada vez mais preparações caseiras. Que tal fazer de vez em quando um bolo caseiro? Comer melhor e não menos para nossas crianças também!

Bon appétit!

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.