Topo

Histórico

Categorias

Aplicativos que contam calorias podem favorecer os transtornos alimentares

Sophie Deram

17/07/2019 04h00

Crédito: iStock

A tecnologia foi uma criação maravilhosa e que nos ajuda cada dia mais a ter uma vida mais simples. O uso de smartphones e tablets tem aumentado no mundo todo e junto com essa onda tem se notado a proliferação de aplicativos que podem ser usados para influenciar hábitos saudáveis, ou até emagrecer.

Mas como tudo na vida, quando falamos de tecnologia não há bônus sem ônus. Um exemplo é o uso de aplicativos para smartphones que calculam as calorias e a quantidade de alimentos ingeridas, assim também como as calorias perdidas durante a prática de exercícios físicos.

Segundo uma pesquisa realizada pela BBC, dezenas de milhares de pessoas no mundo todo usam aplicativos para manejo de peso para estabelecer metas de perda de peso e controlar as calorias ingeridas e as calorias gastas. Essa pesquisa mostrou, no entanto, que o uso desses aplicativos pode piorar a sua relação com o corpo e a comida, e até mesmo desencadear transtornos alimentares.

Os criadores dos aplicativos afirmam que eles existem para promover um estilo de vida saudável. Mas até que ponto?

Usuários registram comportamentos preocupantes

Segundo a pesquisa realizada pela BBC, frases como "estou faminto", "comi demais", "odeio minha vida", "fracasso", "gordinho" foram registradas nesses aplicativos. Isso é muito preocupante.

Relatos de usuários mostraram que eles se sentiam controlados pelo aplicativo e se tornaram obcecados ao ponto de só comerem o que existia na lista de alimentos do aplicativo e até mesmo evitar comidas feitas em casa, pois registrar esse tipo de alimento se torna mais complicado que apenas escanear um código de barras de uma alimento industrializado.

Segundo a pesquisa, há relatos de pessoas que desenvolvem anorexia usando esse tipo de aplicativo.

Questionados sobre esse assunto os criadores dos aplicativos afirmam que existem métodos de controle contra comportamentos de risco como, por exemplo, controle nas metas de perda de peso, não aceitando uma meta de peso que levaria a pessoa a ter um IMC menor que 18.5 e até incentivando a pessoa a ganhar peso ao invés de perder.
Mas será que um aplicativo é capaz de julgar a saúde da pessoa? Óbvio que não! Para começar, sabemos que o peso não é o único critério para avaliar a saúde!

Após a pesquisa realizada pela BBC, os criadores afirmaram que as mensagens preocupantes foram imediatamente apagadas e que funcionários foram contratados para dissuadir aqueles que desejam seguir hábitos prejudiciais.

Estudo científico avalia o uso de aplicativos que contam calorias e transtornos alimentares

Pesquisas têm demonstrado que o uso desses aplicativos que contam calorias é associado ao risco de desenvolver transtornos alimentares.

Um estudo publicado em 2017 sugeriu que o uso desse tipo de aplicativo contribui para um aumento de sintomas relacionados a transtornos alimentares como preocupação excessiva com o peso e obsessão sobre comida. Os pesquisadores observaram que um percentual alto de pessoas diagnosticadas com transtornos alimentares (73%) perceberam que esses sintomas foram desencadeados pelo uso de aplicativos. Transtornos alimentares são problemas muito graves e com consequências perigosas.

Um dos aplicativos mais usados no mundo todo e que foi avaliado neste estudo é o My Fitness Pal. Ele permite o estabelecimento de metas de perda de peso, fornece uma análise diária de calorias e nutrientes ingeridos além de dar um feedback sobre os números de calorias e nutrientes necessários para que a meta seja atingida, tudo isso baseado somente no peso, altura e meta de perda de peso. Esse aplicativo foi projetado para uso em populações saudáveis e com excesso de peso para ajudar essas pessoas a perderem peso.

Os pesquisadores chegaram à conclusão de que o uso de um aplicativo desses por pessoas que têm transtornos alimentares pode ser um gatilho para agravar os sintomas. Eles sugerem que os resultados sirvam de alerta para profissionais e pacientes de que esse tipo de aplicativo deve ser usado com muito critério.

Esse último estudo corrobora outro estudo feito anteriormente que alertou que esses rastreadores de calorias tem o potencial de desencadear, manter ou exacerbar a sintomatologia do transtorno alimentar.

O uso desse tipo de aplicativo pode também desencadear ou agravar sintomas do comer transtornado, que não chega a ser uma doença como os transtornos alimentares que são doenças psiquiátricas, mas que pode alterar a saúde e o bem-estar da pessoa.

O que é um comer transtornado? É contar calorias, pesar alimentos, restringir ou moldar a ingestão calórica de acordo com os alimentos presentes na lista dos aplicativos, acessar o aplicativo muitas vezes ao dia, pensar frequentemente no que comeu ou no que vai comer para preencher o aplicativo. É também, se sentir regularmente culpado por comer além das calorias que o aplicativo propõe, compensar no outro dia tentando comer menos ou fazer exercícios extenuantes para compensar.

Procure ter uma relação saudável com a comida

Ter uma relação saudável com a comida e estar conectado com seu próprio corpo é muito mais eficiente que o uso de aplicativos que contam calorias. A final o aplicativo e a balança não sabem nada de você, não é verdade?

Esses aplicativos não levam em consideração parâmetros individuais físicos, fisiológicos e emocionais. São apenas baseados em alguns poucos números: Peso, altura, calorias que entram et calorias que saem. Eles também não levam em consideração seus sinais de fome e saciedade, sua cultura, seu histórico, seu metabolismo, ou sua genética.

Quando se trabalha com um ser humano, você sabe que é muito mais complexo que isso! O comportamento alimentar é tão importante quanto o nutriente. O ato de comer é fisiológico e psicológico.

Muitas vezes no consultório, começo a conversar com o paciente sobre as suas relações com aplicativos e redes sociais, como Instagram, e convido a fazer um detox deles: simplesmente desligar esses controles externos para poder se reconectar com ele próprio.

Ajudo ele a aprender a identificar seus sinais de fome e saciedade, levando em conta sua realidade, incentivo ele a adotar uma alimentação baseada em alimentos frescos e caseiros, diminuindo o consumo de alimentos ultraprocessados, e ensino ele a não apenas se basear no que um aplicativo de smartphone diz. Isso é a melhor saída para se ter um peso saudável.

Estamos falando de comer melhor e não menos, de sentir mais e calcular menos!

Bon appétit!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller “O Peso das Dietas”, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no “terrorismo nutricional”. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Sobre o blog

Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Esse é um espaço que passa longe dos modismos alimentares. Aqui promoveremos mudanças de hábitos que vão te ajudar a viver melhor. Acredito que o ser humano se nutre de alimentos e sentimentos.

Nutrição Sem Neura