Nutrição Sem Neura https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br Dicas, reflexões e estudos sobre a relação do nosso corpo com a comida, com foco em alcançar uma relação tranquila com os alimentos e, assim, obter um peso saudável. Wed, 08 Jul 2020 07:00:34 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Entenda mais sobre os conflito de interesses em pesquisas de nutrição https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/07/08/entenda-mais-sobre-os-conflito-de-interesses-em-pesquisas-de-nutricao/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/07/08/entenda-mais-sobre-os-conflito-de-interesses-em-pesquisas-de-nutricao/#respond Wed, 08 Jul 2020 07:00:34 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1114

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A ideia de escrever algo aqui sobre conflito de interesses em pesquisas de nutrição me ocorreu a partir do artigo que publiquei semana passada sobre a metanálise “Meat and mental health: a systematic review of meat abstention and depression, anxiety, and related phenomena” que mostra uma ligação entre vegetarianismo e saúde mental.

Tenho bastante cuidado ao ler os artigos científicos. Esse, em especial, apesar de declarar não haver conflito de interesses, foi parcialmente financiado por um programa de marketing e pesquisa desenvolvido para aumentar a demanda por carne bovina. Isso mostra claramente que outros interesses podem ter interferido nos resultados da pesquisa.

Essa publicação não é uma exceção. Muitas pesquisas de alimentação e nutrição são financiadas por empresas, visando o próprio lucro. Essa questão não é simples, envolve diversas questões éticas e políticas, e por isso mesmo considero que precisamos conversar sobre os conflito de interesses em pesquisas de nutrição.

Você sabe o que são conflito de interesses?

Conflito de interesses na pesquisa referem-se a situações em que o pesquisador está envolvido com interesses secundários (financeiros, comerciais, políticos) que podem influenciar os resultados da pesquisa.

Por esse motivo, as revistas científicas exigem que os autores de artigos divulguem a existência ou não de conflito de interesses, como também dê informações sobre o financiamento da pesquisa.

Evitar os conflito de interesses em pesquisas de nutrição e na ciência em geral é algo muito complexo, pois a ciência não é neutra. Ela é feita por seres humanos que têm interesses, intenções e ambições, e que é financiada por governos e empresas.

Os conflitos de interesses são comuns na área da Nutrição. Vale lembrar que os alimentos representam um enorme mercado, por isso é lógico que a indústria de alimentos deseje promover seus produtos e influenciar as pesquisas científicas, além da formação de opinião dos consumidores.

Temos diversos exemplos nos quais o lucro da indústria fala mais alto nas pesquisas de nutrição. Ano passado, por exemplo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) desistiu de incentivar uma campanha que incentiva dietas com base em plantas, pois questionou-se as evidências científicas desse tipo de dieta e os interesses financeiros das empresas fundadoras.

A Coca-Cola patrocinou um estudo que concluiu que o baixo nível de atividade física é responsável pela obesidade, e não uma alimentação não-saudável. Vale lembrar que a pesquisa não procurou relação entre o consumo de bebidas açucaradas e o excesso de peso. E a SBAN (Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição) já foi alvo de diversas críticas e movimentos por ter essa empresa como uma de suas patrocinadoras.

Por isso, é tão importante olhar para o financiamento da pesquisa. Porém, também não podemos cair na armadilha de achar que todas as pesquisas financiadas por empresas geram informações manipuladas.

Na verdade, é possível que promovam benefícios à população em geral. Graças a muitos financiamentos privados, ocorreram o desenvolvimento de novos medicamentos, tecnologias médicas para a detecção e tratamento de doenças, descoberta de funções dos nutrientes e sua presença em determinados alimentos, etc.

As empresas também têm perguntas de pesquisas e questões sobre os potenciais efeitos de seus produtos na saúde. Mas essas questões, sem dúvida alguma, podem ser melhor respondidas por cientistas que não tenham relações de dependência com a indústria. Nesse caso, a questão principal é encontrar uma maneira prática de evitar que interesses comerciais e financeiros interfiram nas pesquisas.

Para isso é importantíssimo pensar sobre os impasses éticos envolvidos na ciência e tentar responder a questões como: quais setores da sociedade servem a uma determinada pesquisa específica? Quem deve se beneficiar com essas descobertas? Quais poderiam ser os usos indevidos dessas descobertas?

O conflito de interesses não acontece apenas com interferência da indústria

Conflitos de interesses em pesquisas de nutrição que envolvem a indústria, sem dúvida, são muito presentes e problemáticos. No entanto, não são os únicos. Aqueles que acontecem por interferência de aspectos individuais dos pesquisadores também merecem atenção.

Um dos aspectos é a preferência por determinadas teorias que podem afetar um campo de estudo. É quase inevitável que um pesquisador forme uma opinião e que defenda seu trabalho, suas próprias descobertas e as teorias que ele adotou como verdadeiras.

Quanto aos cientistas da nutrição, há um desafio adicional. Todos os dias eles devem fazer inúmeras escolhas sobre o que comer, sem permitir que afetem suas pesquisas, ao mesmo tempo são influenciados por normas alimentares da sua família e educação, cultura ou religião.

Pense comigo para entender melhor sobre o que estou falando: você acha que um pesquisador adepto de alguma religião poderia concluir com facilidade que determinada forma de se alimentar atrelada à sua religiosidade seja prejudicial à saúde?

Os pesquisadores são humanos e não é possível separar completamente quem são profissionalmente das outras instâncias da vida. Mas é importante que divulguem seu trabalho, bem como suas preferências alimentares, pois essas informações podem ser relevantes para a compreensão das publicações científicas.

Por exemplo, os leitores devem saber se um autor é fortemente aderente a uma determinada dieta ou que segue e acredita em determina linha da Nutrição.

A divulgação de informações desse tipo contribui para que se entenda de onde o pesquisador está falando e ajuda a contextualizar e a identificar comprometimentos da informação com base em opiniões e questões pessoais. A disponibilidade dessas divulgações permitiria que os leitores fossem mais céticos ou mais inspirados, dependendo de como veem as evidências e argumentos apresentados.

A ciência não é neutra, mas precisa ser ética e transparente

Ou seja, ao lidar com conflito de interesses em pesquisas de nutrição uma das coisas mais importantes é que existam reflexões éticas e transparência, o que se relaciona com a importância do direito à informação e a ter subsídios para interpretar e identificar vieses nas pesquisas.

A visibilidade desse conflito de interesses, seja o patrocínio das empresas ou as questões individuais dos pesquisadores, é essencial para o avanço justo das pesquisas em Nutrição.

É de extrema importância que essas informações sobre os pesquisadores e sobre financiamento da pesquisa possam ser encontradas nos artigos de forma clara e exposta com destaque. E a divulgação disso pela mídia pode ajudar o público a desenvolver uma avaliação mais crítica sobre os estudos.

Para isso, é importante que os pesquisadores informem com clareza a existência de conflito de interesses (ter parentes próximos com interesses financeiros nos resultados da pesquisa, trabalhar em uma organização com interesse financeiro, receber apoio, doações ou bolsas de empresas ou organizações), o que também se aplica a revisores e editores dos periódicos científicos que podem estar ligados aos autores e afetar a imparcialidade da revisão.

Os profissionais e pesquisadores de saúde devem estar atentos a esses conflito de interesses, inclusive no que diz respeito às suas próprias ações, e discutir essas questões eticamente na busca por uma nutrição com ciência e consciência.

Outra responsabilidade nossa é educar as pessoas a não acreditarem em tudo que leem sobre alimentação, ajudando-as a desenvolver o senso crítico e o discernimento para interpretar as informações. Só assim, com ética, transparência e qualidade, é que poderemos ter uma ciência com menos conflito de interesses e mais justa.

Bon appétit!

Sophie

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Estudo liga vegetarianismo e piora da saúde mental: veja se é isso mesmo https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/07/01/estudo-liga-vegetarianismo-e-piora-da-saude-mental-veja-se-e-isso-mesmo/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/07/01/estudo-liga-vegetarianismo-e-piora-da-saude-mental-veja-se-e-isso-mesmo/#respond Wed, 01 Jul 2020 07:00:24 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1107

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  • Nota da autora: Apesar da metanálise afirmar uma declaração sem conflitos de interesses, de forma mais discreta, após as referências, encontramos a informação de que o estudo foi parcialmente financiado pela Beef Checkoff, através da Associação Nacional de Produtores de Carne Bovina (dos Estados Unidos).
    Não é incomum o financiamento da indústria estar envolvido em estudos nutricionais. E isso não significa necessariamente que a pesquisa seja falha. No entanto, ainda que os autores afirmem que o patrocinador não teve nenhum papel no desenho do estudo, nem na coleta, análise e interpretação de dados, esse financiamento é uma fragilidade do estudo e é preciso olhar para isso com cautela e atenção.
    O blog reitera o seu compromisso de sempre conhecer a fonte dos financiamentos dos estudos. (Atualizado em 03/07/2020)

O vegetarianismo é uma prática alimentar bastante antiga e era adotada principalmente por questões religiosas. Já hoje em dia, abster-se de carne e ter uma alimentação vegetariana é uma decisão tomada geralmente em prol da saúde, pelo respeito aos animais e como uma atitude de preservação dos recursos do planeta.

No entanto, uma metanálise, ou seja, um estudo realizado a partir de uma análise estatística que integra resultados de diferentes pesquisas, publicada na Critical Reviews in Food Science and Nutrition, mostra que pessoas vegetarianas tendem a apresentar uma pior saúde mental em comparação com aquelas que consomem carne.

Apesar de um estudo apresentar uma associação entre vegetarianismo e saúde mental, não encontrou relações de causalidade, e é preciso cautela para interpretar seus resultados. Aqui, vou ajudar você a entendê-los melhor.

Alimentação sem carne, depressão, ansiedade e automutilação

Os autores do estudo “Meat and mental health: a systematic review of meat abstention and depression, anxiety, and related phenomena” revisaram 18 pesquisas sobre a relação entre vegetarianismo e saúde mental, limitando-se a observar as seguintes condições: depressão, ansiedade, automutilação, percepção de estresse e qualidade de vida.

Os estudos analisados incluíram 149.559 consumidores de carne e 8.584 abstinentes da Europa, Ásia, América do Norte e Oceania e com idade entre 11 e 96 anos.

Os pesquisadores decidiram examinar apenas estudos que forneciam uma distinção clara entre aqueles que comiam carne e os que se abstinham, pois, a alimentação vegetariana refere-se a diversas formas de comer que podem gerar confusão.

Realmente, o termo “vegetariano” é bem abrangente e é comum ser usado para se referir a pessoas que evitam apenas carne vermelha ou branca ou àquelas que consomem dietas predominantemente à base de plantas.

Além disso, existem, entre outras categorizações, os ovolactovegetarianos (que não consome carne, mas comem ovos e laticínios), lactovegetarianos (adotam uma alimentação sem carne e sem ovos, mas consomem laticínios), os veganos que excluem todos os alimentos de origem animal e quaisquer outros produtos, como roupas e cosméticos derivados.

Levando isso em consideração e com base nos resultados estatísticos, dos 18 estudos, 11 relataram associação entre não consumir carne e ter problemas de saúde mental (depressão, ansiedade e automutilação), 3 indicaram uma associação inversa (ser vegetariano associou-se a menor risco desses sintomas) e 4 apresentaram resultados pouco claros, principalmente no que diz respeito à percepção do estresse e qualidade de vida.

Apesar de ter sido encontrada essa associação, não existiu uma relação de causalidade, ou seja, não foi mostrado que problemas de saúde mental são consequência do vegetarianismo. Dos 18 estudos revisados, apenas dois forneceram alguma evidência disso e mesmo assim demonstraram resultados mistos.

Um deles descobriu que os vegetarianos apresentavam humor significativamente melhor do que os consumidores de carne, enquanto outro mostrou que uma alimentação vegetariana era preditor de depressão e ansiedade.

O que explica a associação entre vegetarianismo e saúde mental?

Os autores apresentaram algumas possíveis explicações para a associação entre vegetarianismo e saúde mental. De acordo com eles, pessoas que lutam com problemas de saúde mental podem decidir alterar sua alimentação, como uma forma de autocuidado.

Eles sugerem que não necessariamente a alimentação sem carne promoveria os problemas de saúde mental, mas uma possibilidade é que aqueles que sofrem com patologias mentais poderiam recorrer ao vegetarianismo por várias razões, entre elas por considerar que essa prática alimentar pode ser melhor para a saúde.

Outra hipótese é que pessoas com transtornos mentais, especificamente os alimentares, podem usar o vegetarianismo como uma forma de autoproteção, escondendo o seu problema. Nesse caso, a busca por esse tipo de alimentação aconteceria pela percepção de que uma alimentação sem carne seria mais saudável e permitiria a prática de restrições de forma mascarada.

Por outro lado, é importante lembrar também quem não consome carne e outros alimentos de origem animais podem apresentar deficiência de vitamina B12, nutriente que não é encontrado em quantidades significativas nos vegetais e cuja carência pode estar relacionada a problemas de saúde mental como a depressão.

Em relação aos benefícios de ser vegetariano, como a melhora da saúde física e diminuição da mortalidade, outros estudos apontam que não estão associados necessariamente à retirada da carne da alimentação, mas ao estilo de vida que pode ser adotado pelos vegetarianos, o que inclui atividade física, baixo consumo de álcool e drogas, e não fumar.

Pesquisas futuras sobre vegetarianismo e saúde mental

Se vegetarianos realmente têm tendência a terem uma pior saúde mental ou se pessoas com problemas de saúde mental é que tendem a tornar-se vegetarianas é uma dúvida que precisa ser respondida com pesquisas futuras, como apontam os pesquisadores.

Outra questão indicada no estudo diz respeito a refletir sobre o fato de que um grande número de veganos e vegetarianos voltam a comer carne. Os pesquisadores questionam se seria um impulso biológico na busca por determinados nutrientes ou se os benefícios percebidos são esmagados pela forma de se alimentar do mundo ocidental.

Por fim, chamam a atenção para que as pesquisas futuras considerem os fatores que levam à abstenção de carne, como práticas religiosas, questões éticas, saúde, ou status socioeconômico (uma vez que pessoas economicamente desfavorecidas podem não consumir carne devido ao seu custo relativamente alto) por considerarem que essas percepções estabelecem distinções entre os comensais.

5 dicas para quem busca uma alimentação sem carne

Acredito que uma alimentação com ou sem carne pode ser saudável e adequada. Algumas pessoas podem tomar a decisão de diminuir o consumo ou abster-se totalmente dos alimentos desse grupo alimentar. Isso pode ser feito sem pôr em risco a saúde física e mental, mas alguns cuidados com a alimentação devem ser tomados em qualquer caso.

Por isso, trago aqui 5 dicas para quem escolheu seguir uma alimentação sem carne e para que vegetarianismo e saúde mental possam convergir para a qualidade de vida e bem-estar.

  1. Prefira os alimentos in natura. Essa é uma dica de ouro para quem consome carne ou não. Existem muitos alimentos industrializados vegetarianos e veganos que podem proporcionar maior praticidade. Como os alimentos convencionais, contém aditivos alimentares e devem ser consumidos com moderação. Portanto, tenha os alimentos in natura como a base da sua alimentação. Uma ótima forma de conseguir isso e ainda descobrir novos sabores, é cozinhando mais!
  2. Varie na alimentação. As carnes constituem apenas um grupo de alimentos, uma infinidade de outras opções estão disponíveis. Aproveite essa diversidade e tenha uma alimentação variada com alimentos de todos os outros grupos alimentares e todos os nutrientes necessários para o seu corpo. Procure ajuda de um nutricionista para orientar você.
  3. Socialize e coma junto. Um dos maiores prazeres da alimentação é comer junto e contar com a companhia das pessoas. Não deixe de se reunir porque a sua prática alimentar é diferente da maioria das pessoas. Celebre e lide com as diferenças.
  4. Conte com a ajuda de profissionais. Uma alimentação vegetariana estrita ou vegana pode levar a deficiências nutricionais, principalmente da vitamina B12, presente nos alimentos de origem animal. Nesse caso, recomenda-se a suplementação deste nutriente com o acompanhamento de um nutricionista ou médico.
  5. Observe seu comportamento alimentar. Talvez a sua decisão tenha sido tomada com base em questões éticas e de saúde e é provável que isso traga benefícios para você. No entanto, também é importante prestar atenção se isso traz algum sofrimento relacionado à alimentação. Fique em paz com a comida e se você identifica que algo está errado, aconselho buscar ajuda de profissionais especializados em saúde mental.

Bon appétit!

Sophie Deram

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Veja como aproveitar as comidas de festa junina sem culpa https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/24/veja-como-aproveitar-as-comidas-de-festa-junina-sem-culpa/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/24/veja-como-aproveitar-as-comidas-de-festa-junina-sem-culpa/#respond Wed, 24 Jun 2020 07:00:16 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1102

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É no Nordeste do Brasil que as festas juninas são mais esperadas, acontecendo durante todo o mês de junho e misturando o sagrado e o profano. É uma forma de festejar, mas também de homenagear três santos: Santo Antônio no dia 13, São João no dia 24 e São Pedro no dia 26 de junho.

Na verdade, também festejamos o dia de São João em outros lugares do mundo: Portugal, França e no Québec é até feriado nacional.

Os historiadores contam que foram os portugueses que trouxeram, no período colonial, essas formas de homenagem a esses santos. A partir daí as tradições e rituais foram se misturando a elementos de diversas culturas, como espanhóis, franceses e até chineses.

Da França temos a influência da dança marcada, que originou as quadrilhas. De Portugal e Espanha a dança de fitas. Da China, onde se manipulava a pólvora, os fogos de artifício. E a partir de trocas culturais esses elementos se misturaram a aspectos dos negros e indígenas, que já realizavam rituais com cantos e danças nesse mesmo período.

As pessoas se preparam para esses festejos, vestindo-se a caráter, de caipira ou matuto (como se diz no Nordeste), com chapéus de palha e saia rodada. Esse ano, com a pandemia da COVID-19, as festas de São João pelo Brasil precisaram ser canceladas, mas mesmo em casa podemos aproveitar esse momento com muita dança, música e comidas de festa junina.

Quanto às comidas, é comum as pessoas sentirem medo de exagerar, mas esse sentimento não ajuda em nada. O melhor mesmo é comer em paz, sem culpa, saboreando o momento e aqui vou te dar algumas dicas que podem te ajudar nisso. Mas antes, vamos conhecer um pouco sobre as comidas de festa junina?

Porque tem tanta comida de milho?

A influência brasileira nessa festa é muito percebida na alimentação. As comidas de festa junina típicas são geralmente feitas de milho.

Esse alimento é muito importante para o brasileiro. Os indígenas tupis-guaranis tiveram contato com o milho a partir dos povos andinos e da Bacia do Prata ele se difundiu por São Paulo e pelo Sul do país, tendo grande participação na nossa alimentação, principalmente no sertão.

No mês de junho há uma abundância de colheita do milho, por isso encontramos nas festas juninas a pamonha, curau, canjica, mugunzá, xerém, pipoca, cuscuz, bolos de milho e de fubá. É interessante que esses nomes variam de um lugar para outro. Por exemplo, o curau que conhecemos em São Paulo é chamado de canjica no Nordeste.

Além das comidas de milho temos diversos pratos preparados com aipim (ou mandioca), coco e amendoim, como bolos, cocadas, pé-de-moleque, além de paçoca, arroz doce, broas e uma infinidade de outras delícias.

Comidas de festa junina não precisam ser light nem diet

Muitas dessas comidas de festa junina são doces em cujo preparo adicionamos açúcar, além de gorduras.

É comum em nossa sociedade uma aversão a esses ingredientes. Assim, muita gente busca opções sem açúcares ou com redução de gorduras e calorias, como os alimentos diet e light para curtir o São João “sem culpa”.

Porém, isso pode fazer você se sentir ainda mais culpado. Vou te explicar porque, mas primeiro vamos entender a diferença entre alimentos diet e light:

  • Alimentos diet: aqueles que apresentam uma quantidade mínima de um nutriente ou ingrediente ou mesmo isenção total dele.
  • Alimentos light: que apresentam pelo menos 25% de redução de algum nutriente ou calorias quando comparado a sua versão original.

Nesse caso, se retiramos ou diminuímos ingredientes como açúcares e gorduras, pode ser necessário adicionar outros, tornando-o um alimento ultraprocessado para manter a similaridade com a comida original. Ou seja, não é porque está escrito diet ou light que o alimento está mais saudável.

Em vez disso, é melhor escolher preparações mais caseiras que utilizam ingredientes como açúcar e gorduras com moderação. Eles não são vilões e têm um papel importante na culinária, proporcionando consistência e sabor às preparações.

Mas porque esses alimentos podem gerar ainda mais culpa? Pense comigo. A versão light ou diet não apresenta o mesmo sabor da comida convencional e pode acontecer de ao consumir o alimento modificado você fique buscando outros alimentos para suprir essa frustração. Em vez de um pedaço de bolo acabamos comendo um pedaço de bolo light e diversas outras coisas em busca de satisfação e prazer.

Por isso, não é preciso ter medo. Quando temos uma relação de medo e culpa com a comida, acabamos nos sentindo mais atraídos por esses alimentos “perigosos”. Em vez disso, trago aqui dicas para você comer comidas de festa junina realmente sem culpa.

7 dicas para aproveitar as comidas de festa junina: essas dicas valem ainda mais para as crianças!

  1. Valorize a cultura brasileira. Não comemos alimentos apenas biologicamente comestíveis, eles precisam fazer parte da nossa cultura. Caso contrário, ingerir nutrientes seria o bastante. Mas sabemos que a alimentação também é sentimento, fonte de prazer e expressão de uma identidade. Por isso, aprecie as comidas de festa junina e lembre-se que cultura também é saúde.
  2. Ouça seus sinais de fome e saciedade. Nosso corpo comunica-se conosco a todo momento. Dá sinais quando estamos exaustos ou doentes e também nos indica quando estamos com fome ou saciados. Preste atenção a esses sinais e coma até sentir-se satisfeito.
  3. Experimente um pouco de tudo. As festas juninas apresentam uma variedade imensa de comidas. Você pode experimentar um pouco de cada prato, apreciando todas as iguarias, sem precisar exagerar e ter a sensação de que comeu demais.
  4. Busque outras formas de diversão. A comida é muito importante nas festas, é por meio dela também que celebramos diversos momentos. Mas ela não precisa ser central nas festas juninas. Mesmo em casa você pode organizar brincadeiras e até uma quadrilha com os familiares que moram com você.
  5. Não veja as comidas de festa junina como proibidas. Não existem alimentos “proibidos” nem “permitidos”. Consumir essas comidas de festa não será responsável pelo ganho de peso nem pela diminuição da sua saúde. Lembre-se sempre que podemos comer de tudo, só não podemos comer tudo.
  6. Volte à sua rotina. Se exagerou na comida, saiba que é absolutamente normal comer um pouco a mais em momentos festivos. Se isso aconteceu com você, não tente compensar fazendo dietas restritivas ou praticando exercícios físicos em excesso. Voltar à rotina de antes é suficiente, o seu corpo agradece.
  7. Coma com prazer e sem culpa. A alimentação precisa ser prazerosa e gerar satisfação. Isso é muito importante para a saúde do corpo e da mente. Não se sinta culpado por comer, pensar assim só levar você a ter mais desejo por comida. Faça as pazes com a comida e com o corpo!

Bon appétit!

Sophie Deram

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Café da manhã reforçado pode ser um aliado na perda de peso e na saúde https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/17/cafe-da-manha-reforcado-pode-ser-um-aliado-na-perda-de-peso-e-na-saude/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/17/cafe-da-manha-reforcado-pode-ser-um-aliado-na-perda-de-peso-e-na-saude/#respond Wed, 17 Jun 2020 07:00:21 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1096

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Já falamos aqui sobre o hábito de pular o café da manhã entre os adolescentes. Alguns estudos afirmam que essa prática leva a possíveis consequências, o ganho de peso e doenças crônicas.

Na verdade, nem todo mundo tem o hábito de fazer um café da manhã reforçado. Pessoas de todas as faixas etárias não realizam essa refeição ou não dão muita importância e ela, preferindo comer algo no caminho do trabalho.

Inclusive, esse hábito é adotado, por muitos, com o intuito de perder peso e muitas vezes faz parte das recomendações de dietas restritivas e jejum intermitente. No entanto, sabemos que o insucesso dessas dietas e práticas é bem comum, pois a restrição não é sustentável a longo prazo e a pouca ingestão calórica da manhã pode ser compensada por um maior consumo de alimentos à noite. Talvez você já tenha sentido isso na pele…

Além disso, algumas pesquisas mostram que pela manhã a tendência do corpo é gastar mais energia após consumir as refeições. Por outro lado, outros estudos afirmam que esse gasto energético não apresenta variações ao longo do dia. Como sempre, não tem uma regra única e isso depende de cada um.

Diante dessas controversas um grupo de pesquisadores alemães publicaram um estudo no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, com o intuito de esclarecer essa questão.

Vale a pena comer menos?

O estudo teve como objetivo verificar a existência de variação ao longo do dia do efeito térmico dos alimentos, ou melhor, da energia que gastamos ao ingerir, absorver, utilizar e armazenar os nutrientes provenientes da comida. Eles também avaliaram se essa variação é preservada após o consumo de refeições com baixa caloria, uma vez que isso pode levar a algum tipo de economia de energia.

Ou seja, será que existe algum horário do dia em que vale a pena comer menos do que o nosso corpo necessita?

Para responder a essa questão a pesquisa foi realizado em laboratório por três dias e contou com 16 voluntários do sexo masculino com peso considerado normal. Em um primeiro momento os voluntários consumiram um café da manhã com baixa caloria e um jantar de alta caloria. Em outro, aconteceu o contrário, um café da manhã reforçado e um jantar menos energético.

O efeito térmico dos alimentos foi medido por calorimetria indireta (uma forma de calcular a energia que os organismos vivos utilizam a partir da produção de gás carbônico e do consumo de oxigênio). Também foi avaliado o metabolismo da glicose, a sensação de fome e o apetite por doces.

Pela manhã gastamos mais energia

Os resultados mostraram que uma refeição consumida no café da manhã, independentemente da quantidade de calorias que contém, gera um efeito térmico duas vezes maior do que a mesma refeição consumida no jantar. Essa descoberta é significativa, pois enfatiza a dica de consumirmos um café da manhã reforçado.

Isso também tem um efeito favorável na energia e no metabolismo da glicose. Os pesquisadores relataram que os aumentos de glicose no sangue e insulina induzidos pelo consumo de alimentos foram maiores após o jantar, em comparação com o café da manhã.

As concentrações de glicose eram 17% maiores após um jantar de baixa caloria em comparação com um café da manhã com baixas calorias, e as concentrações de insulina eram 40% maiores após no jantar de alta caloria em comparação com um café da manhã com alto teor calórico. No entanto, um café da manhã com baixas calorias aumentou a sensação de fome, e particularmente o apetite por doces ao longo do dia.

Curiosamente, esse efeito não foi observado à noite. Tanto o jantar de alta caloria quanto o de baixa caloria resultaram em uma redução da fome e do apetite por doces. Nesse contexto, deve-se considerar que o jantar de baixa caloria foi precedido por um café da manhã de alto teor calórico, o que poderia contribuir para uma maior saciedade do jantar de baixa caloria.

Portanto, de acordo com esse estudo, tomar um café da manhã reforçado pode ser uma boa estratégia na prevenção da obesidade e para evitar picos de glicose no sangue.

Essas descobertas contribuem para elucidar um problema de pesquisa que tem sido intensamente discutido há anos. No entanto, ele também apresenta limitações, como a pequena amostra e a realização do experimento com voluntários somente do sexo masculino, ainda que essa escolha tenha sido apontada como uma forma de evitar os possíveis efeitos do ciclo hormonal no metabolismo energético.

Que tal tomar um café da manhã reforçado?

Agora que você já sabe da importância do café da manhã, te convido a refletir e ver o que é melhor para você. Está bem do jeito que come? Não mude nada! Está perdido em ciclos de dietas, efeito sanfona etc… por quê não adotar o hábito de realizar essa refeição diariamente? Aqui, trago cinco dicas que podem te ajudar nisso.

  1. Defina um horário para o café da manhã. Acordar cedo pode ser um martírio para muita gente, e o café da manhã, uma perda de tempo. Mas experimente organizar seus horários e reservar um momento para essa refeição. Com um bom café da manhã, começamos bem o dia. Você vai se sentir com mais disposição e quem sabe até ganhar mais tempo ao longo do dia.
  2. Respeite sua fome. Quando falo em café da manhã reforçado, não estou dizendo para exagerar, mas sim para comer ouvindo seus sinais de fome e saciedade. Ou seja, coma até sentir-se saciado. É comum negligenciarmos esses sinais, diante da sociedade em que vivemos e da gama de dietas restritivas que nos oferecem todos os dias, mas sempre é possível resgatar a conexão com o nosso corpo.
  3. Planeje as compras para essa refeição. Vá ao mercado, levando em consideração o que você gosta de comer e o tempo disponível para o café da manhã. Tendo os ingredientes necessários em casa fica mais fácil preparar uma comida deliciosa. Por que não começar a fazer o seu pão? Pode ser divertido e até um incentivo a caprichar na qualidade do seu café da manhã!
  4. Coma de forma variada. Não sabe o que comer no café da manhã? Saiba que você tem um leque de opções. Comidas de todos os grupos alimentares podem compor essa refeição, mas alguns podem ser mais comuns nesse momento do dia, como: cereais, frutas, queijos, laticínios, ovos e bebidas como o café. Sugiro que você varie alimentos, de acordo com seus hábitos e preferências.
  5. Coma com atenção plena. Em vez de sair comendo no elevador ou no carro, que tal experimentar sentar-se à mesa e alimentar-se com tranquilidade? Se puder compartilhar a refeição e dividir as tarefas do preparo e limpeza com a família, melhor ainda!

E lembre-se, não faça dietas restritivas, em vez disso, transforme sua relação com a comida e com o corpo!

Bon appétit!

Sophie Deram

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Tempere a relação, a comida e ainda tenha mais saúde https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/10/tempere-a-relacao-a-comida-e-ainda-tenha-mais-saude/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/10/tempere-a-relacao-a-comida-e-ainda-tenha-mais-saude/#respond Wed, 10 Jun 2020 07:00:56 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1092

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O dia dos namorados está se aproximando e com ele a busca de métodos para apimentar a relação, o que inclui alimentos afrodisíacos para aumentar a libido. Os temperos, como pimenta, gengibre, canela e outros, são conhecidos por apresentarem propriedades excitantes.

Alguns estudos mostram que realmente podem ter algum efeito no apetite sexual, mas as pesquisas são limitadas e também não podemos achar que esses alimentos terão um efeito milagroso sobre algo tão complexo quanto o desejo.

De qualquer forma, por que não usar esses ingredientes para temperar um jantar para a pessoa amada? Quem sabe tempere a relação. Quanto ao sabor da comida, com certeza ficará ainda melhor. E tem mais um efeito que talvez você não conheça: os temperos também podem contribuir com a saúde.

É o que mostra um estudo publicado no Journal of Nutrition. De acordo com os autores, temperar com até 6 gramas de uma mistura de temperos naturais pode ter efeitos na redução da inflamação crônica que pode acontecer quando comemos uma refeição rica em gorduras saturadas e carboidratos.

O que é inflamação crônica?

Quando a inflamação é crônica, prolonga-se, geralmente com sintomas imperceptíveis; pode a longo prazo ter consequências para a saúde e estar associada a diversas doenças crônicas, como câncer, doenças cardiovasculares, hipertensão e também sobrepeso e obesidade. É diferente da inflamação aguda que é um mecanismo natural de defesa do organismo que visa a recuperação da saúde do corpo.

Diversos estudos apontam que a inflamação pode aumentar logo após o consumo de uma refeição rica em gorduras saturadas ou açúcares. Nesse caso, chamamos de inflamação pós-pandrial. Não está claro se esses episódios podem causar inflamação crônica, mas suspeita-se que sim, especialmente em pessoas com excesso de peso.

Pesquisas anteriores vincularam uma variedade de temperos naturais, como gengibre e cúrcuma, a propriedades anti-inflamatórias. Esse efeito anti-inflamatório foi estudado in vitro (em laboratórios com ambiente controlado) e também in vivo (em modelos animais e humanos).

Mas poucos estudos controlados e randomizadas foram realizadas com humanos. Nesse tipo de estudo existe o controle de certas variáveis e os participantes são escolhidos aleatoriamente, aumentando a confiabilidade da pesquisa. Além disso, raras pesquisas investigaram o efeito anti-inflamatório de temperos no contexto do consumo diário de refeições. Por isso devemos sempre ter muita cautela no uso de artigos, mesmo científicos, para concluir uso e dosagem desses temperos. Muito do que está sendo passado de maneira sensacionalista se aparenta mais da pseudociência do que da ciência mesmo.

Diante disso, os pesquisadores da University Park, na Pensilvânia, desenvolveram uma refeição de teste contendo uma mistura de temperos naturais familiares aos americanos com o objetivo de explorar o seu efeito na inflamação crônica.

Como avaliaram o efeito anti-inflamatório dos temperos?

Os pesquisadores recrutaram 12 homens com idade entre 40 e 65 anos, com sobrepeso ou obesidade e pelo menos um fator de risco para doenças cardiovasculares.

De forma aleatória, os participantes consumiram, em 3 dias separados, uma refeição de 1.000 kcal com alto teor de gorduras saturadas e alto teor de carboidratos em três tipos de situações:

  1. Sem temperos adicionais;
  2. Com 2 gramas de mistura de temperos naturais;
  3. Com 6 gramas de mistura de temperos naturais.

A mistura de temperos naturais continha: manjericão, folha de louro, pimenta preta, canela, coentro, cominho, gengibre, orégano, salsa, pimenta vermelha, alecrim, tomilho e açafrão.

As refeições de teste foram frango ao curry com coco, bolinho de milho e biscoito de canela. Após 4 horas do consumo da refeição, o sangue dos participantes foi coletado para medir marcadores inflamatórios.

Temperos adicionados à refeição têm efeitos positivos contra inflamação

A partir dos dados analisados, os pesquisadores descobriram que as citocinas inflamatórias (moléculas produzidas por diversas células para mediar e regular a resposta inflamatória e da imunidade) foram reduzidas após o consumo da refeição que continham 6 gramas de temperos em comparação com a refeição que continham apenas 2 gramas de ou que não continha temperos.

Os pesquisadores não podem ter certeza se todos os temperos estão contribuindo para o efeito anti-inflamatório nem o mecanismo preciso disso, mas os resultados sugerem que essas mistura tem propriedades ajudam a reduzir a inflamação causada pela refeição rica em gorduras e açúcares.

O estudo apresenta algumas limitações, como ter uma pequena amostra (apenas 12 pessoas foram avaliadas) e não ter sido um estudo duplo-cego, ou seja, os participantes puderam diferenciar entre as refeições com e sem tempero.

Os autores alertam, portanto, que para garantir que as conclusões dessa pesquisa sejam amplamente aplicáveis, os resultados precisam ser replicados em uma população maior e mais diversificada.

Atenção! Temperos não são milagrosos

Os pesquisadores desse estudo atribuem esse poder anti-inflamatório à presença de compostos bioativos, moléculas que podem interagir com nosso organismo, proporcionando efeitos positivos na saúde e que estão presentes em alimentos funcionais. Exemplos de compostos bioativos são a curcumina presente na cúrcuma e o cinamaldeído da canela.

Mas é importante lembrar que essas substâncias e alimentos não são milagrosos e sozinhos não podem ser responsáveis pela nossa saúde. Eles não precisam ser consumidos em exagero, nem como obrigação. Não veja esses temperos como um medicamento. Você pode experimentá-los e inseri-los em uma alimentação saudável, compondo refeições saborosas e prazerosas, mas sempre em conjunto com um estilo de vida saudável. Por isso trago 5 dicas para você aproveitar esses temperos da melhor forma:

  1. Cozinhe mais. Desenvolver habilidade culinárias contribuem para consumir mais alimentos caseiros e variados. O preparo do próprio alimento também é uma forma de autocuidado e de ter mais autonomia.
  2. Varie nos temperos naturais. Temperar bem a comida com alimentos naturais e variados nos leva a consumir menos sal e a conhecer diversas combinações de sabores. Lembre-se que o estudo apresentado aqui avaliou temperos mais consumidos nos Estados Unidos, mas aqui no Brasil também temos uma grande variedade. Aproveite e delicie-se!
  3. Busque prazer nas refeições. Você não precisa comer apenas porque um alimento prometer ser benéfico para o seu corpo. Há quem pense que o prazer não combina com saúde, mas ele é muito importante para uma alimentação saudável.
  4. Tenha consciência dos sinais de fome e saciedade. Preste atenção às mensagens que seu corpo envia. Coma quando estiver precisando de energia e pare de comer quando estiver satisfeito.
  5. E por fim, faça as pazes com a comida e com o corpo. Lembre-se que não existem alimentos permitidos, nem proibidos e que os corpos são de diferentes tamanhos e formas, seja gentil com o seu!

Bon appétit!

Sophie Deram

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Conheça 6 princípios para falar sobre obesidade sem estigma https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/03/conheca-6-principios-para-falar-sobre-obesidade-sem-estigma/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/06/03/conheca-6-principios-para-falar-sobre-obesidade-sem-estigma/#respond Wed, 03 Jun 2020 07:00:03 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1084

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A obesidade é um problema de saúde pública que atinge o mundo todo. De acordo com dados da FAO divulgados em 2019, 13,2% dos adultos sofrem com a obesidade e a estimativa é de que esses números aumentem nos próximos anos.

É amplamente aceito que o excesso de peso é um fator de risco para muitas doenças crônicas, como hipertensão, dislipidemias, doença do coração e diabetes tipo 2. No entanto, as causas da obesidade são pouco compreendidas, mesmo entre muitos profissionais de saúde, que veem o sedentarismo e a alimentação como os únicos fatores contribuintes, desconsiderando as condições genéticas, psicológicas e ambientais.

As recomendações mais difundidas para prevenir e tratar o excesso de peso são simplificadas em “comer menos e se exercitar mais”. Porém, não parecem estar gerando os resultados desejados, pois até hoje nenhum país conseguiu diminuir os números da obesidade.

Diante disso, pesquisadores têm questionado as condutas atuais, que são vistas hoje até como contra-produtivas, e proposto outras formas de olhar para quem convive com a obesidade e o excesso de peso, considerando mais o foco na saúde e o bem-estar e menos a perda de peso em si.

Algo que tem sido bastante questionado é o estigma que pode estar associado à obesidade em diferentes contextos. É comum as pessoas com excesso de peso serem vistas como preguiçosas e sem força de vontade para emagrecer.

A internalização dessas mensagens discriminatórias, infelizmente, muito difundidas em locais de trabalho, escolas, na mídia e mesmo em casa ou nos ambientes destinados ao cuidado em saúde podem ter efeitos negativos na saúde física e mental.

Diante disso, um grupo de profissionais de saúde e pesquisadores do Reino Unido produziram e publicaram na revista The Lancet uma declaração de consenso que fornece orientações práticas, destinadas principalmente aos profissionais de saúde, para poder acolher melhor as pessoas que sofrem com a obesidade.

Eles consideram que a linguagem, o que inclui saber como falar sobre obesidade durante o atendimento, pode aliviar o estigma no sistema de saúde e levar a um tratamento mais eficaz.

A importância da comunicação

Os autores do consenso mostram que palavras específicas como “obesos” e “obesos mórbidos” são percebidas negativamente, embora comumente usadas por profissionais de saúde. Em vez disso, é mais recomendado o uso de expressões como “que tem (sofre) (ou convive) com a obesidade”.

Essa é uma forma de colocar a pessoa antes da condição de saúde e de reconhecer que ninguém deve ser definido pelo peso. Para entender a importância disso, basta pensar como seria estranho chamar alguém que enfrenta um câncer de “canceroso”.

A declaração traz alguns exemplos de como falar sobre obesidade sem constrangê-los ou desmotivá-los. Veja alguns exemplos:

  • Em vez de: “tenho certeza que os problemas que você tem são todos relacionados ao peso”, experimentar: “Você se importaria se falássemos sobre o seu peso?”.

Assim, você evita uma afirmação que coloca todo a responsabilidade dos problemas de saúde no peso e usa uma pergunta aberta que dá oportunidade de levantar preocupações e pedir conselhos.

  • Trocar: “Seu IMC ideal, que é a sua altura em relação ao seu peso, deve estar entre 18 e 25kg/m²… entre 30 e 35kg/m² você é considerado obeso… pelas medições que fez hoje, certamente se enquadra nessa categoria”. Por: “E como você disse, seu peso subiu… ”; “Você disse que gostaria de perder algum peso porque você está se sentindo sem fôlego …”.

Abrir a conversa usando as próprias palavras do paciente permite estabelecer maior vínculo e confiança, deixando-o mais à vontade para aderir ao tratamento.

  • Tente substituir “com o seu peso, você realmente precisa fazer mais exercícios”, por: “É fantástico que você esteja praticando natação. Não se preocupe, seu peso ainda não caiu, mas o benefício para sua saúde vai além da perda de peso”.

Focar no positivo, mesmo na ausência de benefício mensurável, tranquiliza o paciente que pode estar desanimado. O foco deve ser na saúde e não na perda de peso, que virá gradualmente por consequência com as mudanças de estilo de vida.

Como falar sobre obesidade? 6 princípios para reduzir o estigma e acolher mais

Além dessas sugestões, a declaração apresenta 6 princípios adaptados de um guia voltado para o tratamento do diabetes, que podem ajudar no atendimento de quem sofre com a obesidade.

  1. Seja positivo. É importante concentrar-se nas mudanças que estão sendo alcançados durante o tratamento e não nos objetivos que não foram atingidos ainda;
  2. Seja prestativo e solidário. Ofereça ajuda e aconselhamento quando apropriado e oriente as pessoas sobre como obter mais informações confiáveis. Também é importante reconhecer que existem muitos caminhos para tratar o excesso de peso e que o que funciona para um pode não funcionar para todos;
  3. Esteja ciente sobre a comunicação não-verbal. Aprender como falar sobre obesidade da melhor forma não é uma tarefa fácil e a linguagem corporal aberta também é fundamental para promover colaboração e confiança;
  4. Seja colaborativo. Dê preferência a definir metas junto com o paciente e não tenha a perda de peso como uma delas, mas sim como consequências das mudanças traçadas.
  5. Ser compreensivo. Certifique-se de não atribuir culpa, mas de reconhecer as dificuldades enfrentadas pelo paciente, lembrando que existem fatores genéticos e ambientais que independem dele.
  6. Tenha consciência da influência do ambiente. A linguagem também se difunde pelo ambiente. Por isso, para o profissional de saúde é importante que tenha cadeiras adequadas (aquelas com braços e limites de peso não são as melhores opções para atender pessoas com a obesidade). Certifique-se também de que os equipamentos, como balanças e esfigmomanômetros para aferir a pressão, são adequados para todos os tamanhos.

Atenção! Combater o estigma da obesidade é para todos

Iniciativas como esse consenso, que mostram como falar sobre obesidade e como lidar melhor quem está com excesso de peso, são muito importantes. Ajudam os familiares e os profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, educadores físicos, etc.) a trabalhar com ciência e consciência, tratar os pacientes com respeito e contribuir para melhores resultados no tratamento da obesidade.

Eu mesma estou organizando um Manifesto para um novo olhar sobre obesidade, mas é bom lembrar que combater esse estigma e discriminação não é uma tarefa apenas para os profissionais de saúde.

De forma geral, nossa sociedade é gordofóbica, ou seja, tem medo e despreza a gordura, seja nos corpos ou na comida, em parte por isso as pessoas estão sempre se perguntando se gordura pode e buscando ter corpos cada vez mais magros.

Portanto, todos nós devemos e podemos fazer algo para evitar a discriminação das pessoas que têm obesidade. Ao contrário do que muitos pensam, culpa e vergonha não motivam ninguém. Coloque-se no lugar do outro e evite comentários carregados de julgamentos sobre aqueles que sofrem com a obesidade.

Sophie Deram

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Há relação entre obesidade e covid-19? Ligação parece não ser tão direta https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/27/ha-relacao-entre-obesidade-e-covid-19-ligacao-parece-nao-ser-tao-direta/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/27/ha-relacao-entre-obesidade-e-covid-19-ligacao-parece-nao-ser-tao-direta/#respond Wed, 27 May 2020 07:00:52 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1076

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No mundo todo, bilhões de pessoas sofrem com o excesso de peso e algumas notícias sobre a relação entre obesidade e a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, têm gerado preocupação e ansiedade. Ficar ansioso não vai resolver e posso ajudar você a entender melhor o tema.

O que a ciência tem mostrado sobre obesidade e o novo coronavírus?

Alguns estudos científicos foram realizados para analisar essa associação. Um deles, publicado como um breve relatório na revista Obesity, avaliou 124 pacientes internados em terapia intensiva na França. Os pesquisadores observaram que 47,6% dos pacientes apresentavam excesso de peso e 28,2% obesidade grave (IMC maior que 35kg/m²).

Dados americanos publicados na Clinical Infectious Diseases sugerem que a obesidade em pacientes com menos de 60 anos pode ser um fator de risco para a covid-19, o que também é mostrado por uma breve correspondência com dados de 265 pacientes internados em unidades de tratamento intensivo (UTI) de hospitais universitários dos Estados Unidos.

No entanto, esses estudos não são suficientes para afirmar que a obesidade é um fator de risco para a covid-19. Todos eles são preliminares, feitos com amostras pequenas e apresentam muitas limitações. Indicam que mais pesquisas precisam ser realizadas e não permitem concluir que a obesidade é um fator de risco para a infecção.

Mesmo com a escassez de comprovações científicas, as pessoas com obesidade que apresentam IMC maior que 40kg/m² têm sido classificadas como grupo de risco para a covid-19. Uma correspondência a ser publicada em junho de 2020 em uma das maiores revistas científicas do mundo, a The Lancet, chama a atenção para isso.

Os autores consideram que existam condições que tornem os pacientes mais vulneráveis à doença, mas quanto ao IMC maior que 40kg/m² não existem dados comprobatórios, apesar de ser divulgado como um fator de risco no “Guia para distanciamento social de todos no Reino Unido”, como também pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

Os autores afirmam: “Embora se reconheça que um IMC mais elevado tenha sido associado a um maior risco de diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e hipertensão, os quais são preditores de maus resultados para a covid-19, até o momento, nenhum dado disponível mostra resultados adversos de covid-19 especificamente em pessoas com um IMC maior ou igual a 40kg/m2”.

Também apontam para a necessidade de mais evidências e informações que expliquem os motivos para a obesidade ser identificada como um fator de risco para formas mais graves da infecção, inclusive para que profissionais de saúde, organizações, instituições e hospitais possam dar maior apoio e melhor tratamento para essas pessoas.

Mesmo sem comprovação, essa informação pode gerar ansiedade

Os autores também alertam que a difusão de informações sobre a relação entre obesidade e covid-19 pode gerar ansiedade nas pessoas que apresentam obesidade:

“A escassez de informações sobre o aumento do risco de doença para pessoas com IMC acima de 40kg/m2 é ambígua e pode aumentar a ansiedade, uma vez que esses indivíduos foram classificados como vulneráveis a contraírem covid-19 em sua forma grave”.

Isso pode levar a uma busca por emagrecimento rápido por meio de dietas restritivas, que não são sustentáveis nem contribuem com a saúde. É bom lembrar que fazendo restrições alimentares e excluindo grupos de alimentos nossa alimentação pode ficar carente de energia e nutrientes, o que pode prejudicar nossa imunidade, especialmente importante no combate a infecções.

Além disso, quem apresenta um peso considerado normal também pode sentir um alívio ilusório: “da mesma forma, é preocupante que o ponto de corte do IMC (≥40kg/m2) possa dar uma falsa segurança para pessoas com IMC mais baixos”.

É importante lembrar que ainda que algumas pessoas estejam mais expostas ao vírus, pela sua ocupação ou dificuldade em adotar medidas de higiene, e que determinadas condições de saúde (como diabetes, asma e idade avançada) aumentem as chances de desenvolver a doença em sua forma mais grave, todos nós estamos sujeitos a contrair essa doença.

Por isso, precisamos de condições para que todos possam se proteger e soluções para que os sistemas de saúde possam tratar todas as pessoas infectadas, sem discriminação, inclusive com equipamentos hospitalares adequados para o tratamento de pessoas com obesidade, um problema que precisa ser discutido, como proponho no Manifesto para um novo olhar sobre obesidade.

Cuide da sua saúde sem estresse!

Portanto, se você está preocupado com a obesidade e a covid-19 lembre-se que não existem dados suficientes que confirmem essa relação. Para se prevenir a melhor opção é ficar em casa, se possível, e adotar medidas de higiene.

Além disso, é importante cuidar da saúde de uma forma geral, esteja você com um excesso de peso ou não. Aqui estão 5 dicas que podem te ajudar nisso:

  1. Não faça dietas restritivas. As estratégias de perda de peso rápido não são saudáveis nem sustentáveis e podem provocar efeito sanfona. Você não precisa emagrecer rapidamente. Se está em busca de um peso saudável, tente uma perda gradual, focando mais na mudança de hábitos e menos na balança.
  2. Conecte-se com as sensações do seu corpo. Perceba quando seu corpo está com fome e alimente-se até sentir-se saciado.
  3. Desenvolva habilidades culinárias. Cozinhar contribui muito para a nossa saúde, pois pode ajudar a aumentar o consumo de comida caseira e a comer com mais prazer. Você também pode experimentar compartilhar essa tarefa com a sua família e ao final partilhar a refeição.
  4. Pratique atividade física. Busque, mesmo em casa, uma atividade que te proporcione um momento de lazer e de prazer. O objetivo principal é o autocuidado e não a perda de peso.
  5. Dê atenção às suas emoções. Nesse período, pode perceber que está descontando suas emoções na comida, é o que chamamos de fome emocional. Isso é normal, mas você também pode experimentar outras formas de lidar com seus sentimentos. E se precisar, não hesite em buscar ajuda de profissionais.

Bon appétit!

Sophie Deram

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Papinhas prontas são saudáveis? Dicas para fazer a introdução alimentar https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/20/papinhas-prontas-sao-saudaveis-dicas-para-fazer-a-introducao-alimentar/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/20/papinhas-prontas-sao-saudaveis-dicas-para-fazer-a-introducao-alimentar/#respond Wed, 20 May 2020 07:00:05 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1067

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Quando vou ao supermercado e chego na seção dos alimentos para crianças, estou um pouco preocupada. Já falei sobre isso aqui em relação aos ofertas de tipos de leites. O forte apelo comercial desses alimentos pode confundir os pais na hora de escolher o que levar para casa. E não é só no Brasil que passamos por essa situação.

Em um comunicado de imprensa publicado em de julho 2019, a OMS (Organização Mundial de Saúde) fez um alerta aos países Europeus com relação à quantidade de açúcares encontrados em alimentos destinados à alimentação infantil. Um estudo realizado pela OMS/Europa descobriu que alimentos destinados à alimentação de bebês têm níveis de açúcar que ultrapassam os limites das diretrizes estabelecidas pela organização e que esses alimentos são inadequadamente comercializados para bebês, como também seus rótulos podem deixar os pais confusos.

A OMS desenvolveu um Modelo de Perfil de Nutrientes para crianças de 6 a 36 meses com o objetivo de guiar a decisão de que tipo de alimentos seriam ideais nessa faixa etária. A organização desenvolveu também uma metodologia para identificar alimentos, para crianças, comercializados e para coletar dados sobre o conteúdo nutricional nos rótulos desses produtos, bem como informações de embalagem, rotulagem e o tipo de publicidade usada para promover a venda desses alimentos.

No estudo, foram coletados dados de 7.955 alimentos e bebidas comercializados para bebês e crianças pequenas em 516 lojas de 4 cidades (Viena na Áustria, Sofia na Bulgária, Budapeste na Hungria e Haifa em Israel).

A OMS recomenda que nenhum tipo de alimentação complementar deveria ser comercializado como sendo adequado para bebês menores de 6 meses. Porém, viram que em todas as 4 cidades, uma grande proporção desses produtos (entre 28% e 60%) era comercializada como sendo adequadas para bebês com menos de 6 meses de idade.

Outra descoberta desse estudo foi que cerca da metade dos produtos analisados tinham 30% ou mais de suas calorias provenientes de açúcares, enquanto a OMS recomenda que as calorias provenientes de açúcares não devem passar de 15%. Esses produtos tinham em sua composição além de açúcar, sucos de fruta concentrados e outros agentes adoçantes adicionados à sua composição.

A OMS tem um guia europeu de alimentação e nutrição para bebês e crianças pequenas e também princípios orientadores para alimentação complementar da criança que é amamentada. E se compararmos as recomendações desses guias e os dados encontrados nesta pesquisa, veremos que a realidade nada tem a ver com as reais recomendações da OMS.

Quais são as recomendações da OMS depois dessa pesquisa?

Após essa pesquisa, a OMS criou um guia para ajudar os estados membros a entender que tipo de alimentos estão sendo comercializados para bebês e crianças pequenas com orientações para acabar com a promoção inadequada desses alimentos na Europa. Os objetivos deste guia são a proteção e incentivo ao aleitamento materno, prevenção da obesidade e doenças crônicas, a promoção de hábitos alimentares saudáveis desde a introdução alimentar e assegurar que os pais e/ou cuidadores tenham informações claras com relação à alimentação das crianças nessa faixa etária.

Além disso, foi determinado um prazo para que as empresas possam cumprir as normas da OMS que pregam que as calorias provenientes de açúcar não devem passar de 15% no produto.

Consequências do excesso do consumo de açúcar nessa faixa etária

Segundo a OMS os altos índices de açúcares encontrados nesses alimentos podem estar relacionados a problemas dentários dessas crianças, principalmente o desenvolvimento de cáries, e podem ter também uma associação com o aumento do risco de desenvolver obesidade e doenças associadas como dislipidemias, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares…

A diretora regional da OMS/Europa reforça que “A boa nutrição na infância continua sendo a chave para assegurar o crescimento e desenvolvimento ideais da criança e melhorar os resultados de saúde mais tarde – incluindo a prevenção do excesso de peso, obesidade e doenças não transmissíveis relacionadas à dieta, permitindo assim uma vida saudável e a promoção do bem-estar para todos, em todas as idades”.

A importância da introdução alimentar em paz com a comida

O alerta feito pelo OMS foi dirigido aos países europeus, mas teve tom de alerta mundial. O consumo excessivo de açúcares pode definir o desenvolvimento das preferências de sabor das crianças, aumentando a predileção por alimentos mais doces. Quando a criança se habitua desde cedo a esses alimentos com muito açúcar elas têm mais dificuldade de aceitar alimentos in natura.

O melhor é apostar em uma alimentação baseada em alimentos frescos e preparados em casa que podem prevenir problemas de saúde futuros, relacionadas à alimentação.

Os alimentos industrializados são, certamente, práticos e podem ser mais baratos, mas não são indicados para crianças menores de 1 ano e após essa idade devem ser consumidos com moderação. Isso pode ajudar seu filho a ter uma relação mais saudável com a comida desde o início.

Aqui no Brasil foi lançado, no final de 2019, o Guia Alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos. Esse documento traz 12 passos valiosos que podem nos ajudar na alimentação das nossas crianças e bebês e em uma introdução alimentar em paz com a comida. Olha só:

  1. Amamentar até 2 anos ou mais, oferecendo somente o leite materno até 6 meses.
  2. Oferecer alimentos in natura ou minimamente processados, além do leite materno, a partir dos 6 meses.
  3. Oferecer água própria para o consumo à criança em vez de sucos, refrigerantes e outras bebidas açucaradas.
  4. Oferecer a comida amassada quando a criança começar a comer outros alimentos além do leite materno.
  5. Não oferecer açúcar nem preparações ou produtos que contenham açúcar à criança até 2 anos de idade.
  6. Não oferecer alimentos ultraprocessados para a criança.
  7. Cozinhar a mesma comida para a criança e para a família.
  8. Zelar para que a hora da alimentação da criança seja um momento de experiências positivas, aprendizado e afeto junto da família.
  9. Prestar atenção aos sinais de fome e saciedade da criança e conversar com ela durante a refeição.
  10.  Cuidar da higiene em todas as etapas da alimentação da criança e da família.
  11. Oferecer à criança alimentação adequada e saudável também fora de casa.
  12.  Proteger a criança da publicidade de alimentos.

Bon appétit!

Sophie Deram

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Maioria dos livros mais vendidos de nutrição não se embasa na ciência https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/13/maioria-dos-livros-mais-vendidos-de-nutricao-nao-se-embasa-na-ciencia/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/13/maioria-dos-livros-mais-vendidos-de-nutricao-nao-se-embasa-na-ciencia/#respond Wed, 13 May 2020 07:00:15 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1061

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Fazemos escolhas alimentares cotidianamente, influenciados por diversos fatores: sabor dos alimentos, disponibilidade, preço, fatores genéticos, fome e saciedade, cultura, classe social e, entre muitos outros, pelas informações.

As informações sobre alimentação chegam até nós através da educação que recebemos em casa, da escola, e dos meios de comunicação. Rádio, televisão, redes sociais, blogs, sites de notícias e livros de nutrição são alguns dos meios mais comuns na busca por informações.

No entanto, é preciso ter cuidado com a qualidade do que é veiculado. Uma pesquisa norte-americana publicada na Nature avaliou resumos de 100 dos livros mais vendidos de nutrição entre 2008 e 2015. O estudo mostrou que a maioria deles não se baseia em evidências científicas e enfatiza a necessidade de melhorar a disseminação de conhecimento sobre nutrição.

Muitos dos livros mais vendidos de nutrição não são escritos por especialistas em saúde

Além da análise dos resumos selecionados, os pesquisadores buscaram informações educacionais e ocupacionais dos escritores dos livros e observaram que dos 83 autores, 33 tinham um diploma de doutorado (Ph.D ou M.D), 28 eram médicos, apenas 3 eram nutricionistas e os demais mantinham uma ampla gama de empregos, incluindo empresários, personal trainers, blogueiros e atores.

Dos 20 autores que reivindicaram afiliações em universidades, 7 tinham um compromisso universitário atual que podia ser verificado online nos diretórios das instituições.

Quanto ao conteúdo dos resumos, foram extraídas informações sobre as recomendações nutricionais, se sugeria perda de peso, se alegava aumentar a expectativa de vida e se o livro pretendia ajudar a curar ou prevenir doenças.

A perda de peso foi um tema comum nos resumos de 80 dos livros mais vendidos sobre nutrição. Muitos (45) especificaram um tempo para o emagrecimento, cerca de 21 dias para perder em torno de 7 kg.

Além da perda de peso, 31 dos livros prometeram curar ou prevenir uma série de doenças, incluindo diabetes e doenças cardíacas, mas também câncer, demência, artrite, doenças autoimunes, doença de Parkinson, transtornos do espectro autista e depressão.

No entanto, os conselhos nutricionais para alcançar esses resultados variaram bastante em termos de quais tipos de alimentos devem ser consumidos ou evitados, e essas informações eram muitas vezes contraditórias. Particularmente, as recomendações sobre o consumo de carboidratos, laticínios, proteínas e gorduras diferiram bastante entre os livros.

Muitos incluíam fortes opiniões sobre os carboidratos e a necessidade de cortar esses nutrientes da alimentação. Outros discordaram quanto ao consumo de leite e seus derivados e isso refletia nas diversas dietas recomendadas: baseada em plantas, rica em gorduras, rica em proteínas, dieta mediterrânea, paleo, cetogênica e incentivo à substituição das refeições por shakes ou sopas para emagrecer.

Para determinar em que medida as alegações nutricionais foram apoiadas com evidências da literatura científica, o texto completo de 7 dos 10 livros mais vendidos de nutrição foi pesquisado pelos termos “revisão sistemática”, “meta-análise” e “randomizado” que se refere a tipos de metodologias de estudos científicos.

Apenas um deles apresentou referências a mais de 5 pesquisas científicas. A maioria continha os nomes de artigos citados no final de cada livro, mas não incluíam citações no texto, dificultando a indicação de onde as informações dos artigos científicos foram incorporadas e se alguma alegação feita no texto correspondia a um estudo específico.

Informações contestáveis

Os pesquisadores listaram afirmações contestáveis ​ou sem fundamento científico encontradas nos livros. Geralmente elas são simplistas, apresentam sugestões para restringir a alimentação e colocam em um único alimento o poder de cura ou emagrecimento. Transcrevi e traduzi livremente algumas delas, e é provável que você já tenha lido algo parecido por aí.

“Os carboidratos estão destruindo seu cérebro”.

“Tem pressão alta? O chá de hibisco pode funcionar melhor do que um medicamento para hipertensão e sem os efeitos colaterais”.

“Combatendo doenças hepáticas? Beber café pode reduzir a inflamação do fígado”.

“Lutando contra o câncer de mama? Consumir soja está associado a uma sobrevivência prolongada”.

“A dieta da barriga zero ataca a gordura em um nível genético”.

“Pule o café da manhã, pare de contar calorias, coma altos níveis de gordura saturada, exercite-se, durma menos e adicione suplementos inteligentes”.

“Veja como cultivar novos receptores para seus sete hormônios metabólicos, fazendo você perder peso e se sentir bem rapidamente”.

“Jogue cubos de gelo na água para torná-la mais ‘estruturada’”.

Ignore o café da manhã, pois pode fazer você engordar. Consuma até 75% calorias provenientes de gorduras para uma saúde ideal, redução de doenças cardíacas e prevenção de câncer”.

O que fazer? 6 dicas para buscar informações confiáveis

Não podemos desconsiderar que alguns dos livros mais vendidos de nutrição estão fornecendo bons ou até excelentes informações, mas é provável que muitos, talvez a maioria, contenham recomendações sem fundamento científico e gerem desinformação. Diante de tantas recomendações e de tanta contradição, fica difícil saber em que confiar.

Os autores do estudo acreditam que esses livros podem ter mais impacto no público do que a literatura científica e apontam a necessidade de que falhas, conflitos de interesse, baixa credibilidade dos autores e a falta de embasamento científico devem ser mais amplamente divulgados para proteger o público da desinformação e para melhorar a disseminação de informações confiáveis.

Além disso, aqueles que buscam se informar também podem identificar informações pouco confiáveis, seja nos livros ou quaisquer outros meios de comunicação. Aqui estão 6 dicas que podem te ajudar nisso.

  1. Busque informações sobre os autores dos livros ou notícias, como também dos pesquisadores e das instituições das pesquisas citadas.
  2. Atente-se para os estudos que mostram correlação e são vendidos como causa. Por exemplo, consumir açúcar em excesso pode contribuir com o diabetes, mas não é a causa desse problema de saúde.
  3. Fique atento às promessas com soluções rápidas, como aquelas recomendações que prometem uma grande perda de peso em um curto intervalo de tempo.
  4. Sem sensacionalismo! Desconfie de advertências relacionadas a um único alimento (“comer macarrão à noite engorda”, “açúcar é veneno”). Alegações boas demais para ser verdade também não merecem credibilidade (“tomar água com limão em jejum emagrece” “confira os alimentos que prometem emagrecer”).
  5. Preste atenção se existe algum conflito de interesse. Ou seja, observe se a informação está ajudando a vender algum produto.
  6. Informe-se, mas evite o bombardeio de informações. Já sabemos que informação demais podem acabar desinformando. Quanto à alimentação, podemos ficar ainda mais confusos e estressados, quando o melhor é estar em paz com a comida!

Bon appétit!

Sophie Deram

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Medo de engordar na quarentena? 10 dicas para não se preocupar tanto https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/06/medo-de-engordar-na-quarentena-10-dicas-para-nao-se-preocupar-tanto/ https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/2020/05/06/medo-de-engordar-na-quarentena-10-dicas-para-nao-se-preocupar-tanto/#respond Wed, 06 May 2020 07:00:34 +0000 https://nutricaosemneura.blogosfera.uol.com.br/?p=1053

Crédito: iStock

Nesse período delicado do isolamento social fico feliz que muita gente tenha aproveitado para comer melhor, cozinhar e pensar mais na saúde do que no peso. Mas também vejo que há quem se sinta culpado por exagerar na comida, mudar os hábitos ou engordar na quarentena.

Mas sabia que isso é normal? Vou te explicar o porquê.

Saindo da rotina ou comendo com mais consciência?

Mesmo aquela pessoa bem regrada com a alimentação pode ter saído da rotina alimentar nessa quarentena. Se isso aconteceu com você é provável que tenha ganhado um pouco de peso. E quer saber? Isso não é um problema.

Se está preocupado por engordar na quarentena posso dizer que isso é bem compreensível na sociedade em que vivemos e que valoriza a perda de peso, uma sociedade que confunde saúde e magreza. Mas é preciso entender que a alimentação é flexível e variável (não somos máquinas para comer sempre da mesma forma e nas mesmas quantidades) e que o nosso corpo e nosso peso mudam ao longo de toda a vida.

Ganhar peso pode ser uma forma de defesa do corpo e a tendência é que você volte ao peso anterior com a adaptação à situação e retorno à normalidade.

No entanto, se você abandonou uma dieta restritiva que fazia antes desse período e passou a engordar na quarentena, tenho outra hipótese.

Com a dieta restritiva, terceirizamos a fome. Ela passa a ser guiada por fatores externos sobre o quê, quando e como comer e não pelas nossas necessidades fisiológicas.

Não sei se faz sentido para você, mas suponho que o seu corpo, que estava passando por uma restrição alimentar e necessitando de combustível, agora, com essa pausa, esteja sendo ouvido. Ou seja, é possível que você sinta mais fome, coma mais e até ganhe peso porque seu organismo estava pedindo voltar ao seu peso antes da dieta.

Essa “saída” da rotina na verdade pode ser o momento de se alimentar com mais consciência e com mais foco na saúde. Pode ser um momento para fazer as pazes com a comida e o corpo.

Você pode estar buscando mais conforto

Também é normal comer de maneira diferente na quarentena porque nesse momento em que estamos mais ansiosos e estressados você pode querer comer coisas mais gostosas e que proporcionam conforto e prazer. É o que chamamos de fome emocional.

Nesse caso, comemos em resposta a um estado emocional. Se acha que está comendo mais devido às suas emoções, posso garantir que não está sozinho e que isso é normal. Comemos por várias razões e as emocionais são uma delas.

Não é à toa que, de acordo com dados divulgados da Horus, empresa que tem acesso a informações de consumidores das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, os alimentos que tiveram maior procura entre o começo de março e de abril desse ano foram: sorvete (56%), leite condensando (55%), misturas para bolos (19,5%) e salgadinhos (14,4%).

Esses alimentos ultraprocessados e ricos em açúcares estão sendo mais procurados agora porque comê-los pode ser reconfortante e muito prazeroso, em grande parte pela forma como os carboidratos, açúcares, gorduras e sódio estão combinados, tornando-os muito saborosos. Eles não são alimentos proibidos e podem ser consumidos, mas é importante buscar o equilíbrio e a moderação.

Do mesmo modo, é preciso estar atento à fome emocional, apesar de natural, ela pode estar exacerbada e se tornar um problema quando a comida é a única forma encontrada para lidar com os sentimentos e quando leva a um exagero alimentar frequente e geralmente acompanhado de uma sensação de descontrole, trazendo prejuízos para a sua saúde física e mental. Nesse caso, aconselho procurar profissionais de saúde especializados.

Coma com prazer

Esse medo ou preocupação por engordar na quarentena também pode ter relação com a sensação de culpa ao comer.

A culpa vem do excesso de informações que recebemos frequentemente e que classificam os alimentos em “bons” e “ruins” e transformam um simples pão ou um bolo em objeto de sofrimento. Ela não deveria intervir na nossa alimentação, pois comer é uma necessidade e o prazer faz parte do bem-estar. Quando comemos com culpa, comemos mais. Enquanto que comer com prazer e sem culpa nos deixa mais satisfeitos, então comemos menos.

Uma pesquisa estudou essa associação. Os pesquisadores avaliaram se comer um bolo de chocolate com culpa ou como forma de celebração estava relacionado a diferenças de atitudes e comportamento alimentar. Os participantes que associaram o bolo de chocolate à culpa apresentaram atitudes mais negativas e demonstraram menor motivação para se alimentarem de forma mais saudável ou perderem peso do que aqueles que associaram o bolo de chocolate à celebração.

A culpa, na verdade, gera insatisfação corporal, e nos insere em um círculo vicioso, que nos leva a comer mais na tentativa de sanar esse sentimento ruim.

Por isso, deixe a culpa de lado e coma com prazer, para nutrir-se e aproveitar as refeições. Assim, você vai comer de tudo e ter mais bem-estar e saúde.

Dicas para comer sem culpa

Listei 10 dicas que podem ajudar você a estar em paz com a comida e com o corpo. Elas podem ser inseridas na sua vida aos poucos, sempre respeitando o seu tempo.

  1. Crie uma rotina que respeite o seu corpo. A rotina pode ajudar na nossa saúde física e mental, mas é importante não se cobrar tanto nem tentar inserir atividades em excesso;
  2. Não faça uma dieta restritiva. A restrição causa estresse no corpo e já estamos vivendo um momento estressante por si só. Além disso, gera mais desejo por comida e nos insere em um círculo vicioso que pode levar ao ganho de peso e até à compulsão;
  3. Cozinhe mais. Assim você pode comer mais alimentos frescos e caseiros e ainda aproveitar esse momento tão próximo da meditação;
  4. Identifique e respeite a sua fome. Se você tiver os sinais de fome e saciedade como guias ficará mais fácil perceber quando seu corpo está precisando de comida e quando é hora de parar de comer;
  5. Coma com mais atenção e consciência. Faça das refeições um momento para estar presente, sem interferências e seja mais consciente em relação à sua alimentação, vontades e necessidades;
  6. Reconheça e acolha o comer emocional. Não há nada de errado em comer movido pelas emoções. Aceitar e perceber que isso está acontecendo pode ajudar a lidar com isso da melhor forma;
  7. Busque outras formas de lidar com sentimentos negativos. Que tal encontrar outras possibilidades do que comer? Pense bem, se você está triste com alguma coisa, talvez desabafar com um amigo seja melhor do que descontar na comida;
  8. Tire a culpa do cardápio. A culpa só atrapalha e não deve interferir na nossa alimentação. Em vez disso, coma buscando a satisfação;
  9. Faça da refeição um momento de prazer e confraternização. Isso é muito importante para a saúde e para o bem-estar e se você aprecia a companhia dos outros pode tornar o ato de comer ainda mais prazeroso;
  10. Seja mais gentil com você e seu corpo. Existem corpos de todas as formas e tamanhos, aceite-se e pare de se criticar tanto.

Bon appétit!

Sophie

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